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Citrus
Deu-se o fato, como das outras vezes, ao sol quase posto das seis da tarde, e foi como se uma mão de força irreconhecível me empurrasse para o pomar das laranjas descascadas. Firmes, doces, sem sementes nem fiapos a se entranhar entre os dentes. Laranjas de Hollywood. Cenográficas, escolhidas e livres de suas cascas, sem um machucado de faca.
Todas estranhamente dispostas em seus galhos de nascença, à mercê da humanidade preguiçosa. As melhores não necessariamente se apanhavam nos ramos mais altos das árvores, como nos pomares comuns e para tristeza dos meninos mirradinhos. Muitas das mais suculentas ficavam nas saias das laranjeiras, quase tocando a terra e ao alcance do casal de anões. Fartavam-se ambos, sorvendo até secarem os bagaços, naquele “chup-chup” a lembrarem porcos. Pus-me ali sem querer assustar, e ao verem-me ao seu lado não manifestaram outra coisa senão uma silenciosa indiferença. Ali éramos, somente, sem definido propósito. Dois anões e um intruso de outro tempo, a observar sem compreender, talvez despido das cascas da lógica, do senso de necessária causa e consequência para tudo que exista sob o sol – já praticamente lua, àquela altura do dia 18 de novembro de 1942.
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