- Líricas Bulhufas

Marcelo Sguassábia

Redator publicitário, beatlemaníaco empedernido, pianista diletante e fã de livros e filmes que tratem sobre viagens no tempo. Tenho coluna fixa em diversas publicações eletrônicas e um jornal impresso.
Blogs: www.consoantesreticentes.blogspot.com / www.e-tcetera.blogspot.com
E-mail: msguassabia@yahoo.com.br

TERRA DE GIGANTES

Pimpões, com cara de quem fez e não quer que ninguém fique sabendo, cabelos repartidos e cheirando a sabonete Phebo, pulávamos em nossos pufes. No mesmo quarto em que ficavam os bambis de olhos de vidro - uns de pelúcia curta, malhados de branco e preto, empalhada espécie de duvidoso gosto. Ao menos parecia ser dessa forma que o quadro se definia, já que ninguém tem certeza do que se passa de fato quando se trata de sonho. Fred Flintstone gritava “Wilmaaaaaaaa” entre uma garfada e outra no filé de brontossauro.


A velha não era de se jogar fora

Assim que a velha teve o piripaque fatal que a levou dessa para outras e mais interessantes esferas, veio vindo à tona aquele amontoado de estranhas coisas, denunciando que a sua notória avareza era mais grave do que se supunha. Além do estrito controle com a economia doméstica, que a tornou folclórica na vila, descobriu-se que Dona Anacleta Miguelina Ribeiro não se desfazia de nada - ainda que esse nada fossem despojos, utensílios gastos e embalagens vazias.


MÃE TINHÃ

- A senhora é que é a Mãe Tinhã?
- Bom, o vidente aqui não é o fio, então eu digo pra fio que eu sou eu, porque fio não é brigado a saber. Mas Mãe Tinhã, que sabe tudo, já tá adivinhando quem fio é.
- Polícia. A senhora tem o direito de permanecer calada e só falar na presença do seu advogado.


O jeito era Jânio

Este ritual diário – quando não várias vezes num só dia – devia ser enfadonho para o célebre proibidor de brigas de galo. Mas pelo menos era seguro, o script não variava. O sanduíche de banana que empunhava era o salvo-conduto do homem da vassourinha para livrar-se de banquetes de Clotildes, até porque deduzia-se estar com o bucho a meio reservatório.


Citrus

Deu-se o fato, como das outras vezes, ao sol quase posto das seis da tarde, e foi como se uma mão de força irreconhecível me empurrasse para o pomar das laranjas descascadas. Firmes, doces, sem sementes nem fiapos a se entranhar entre os dentes. Laranjas de Hollywood. Cenográficas, escolhidas e livres de suas cascas, sem um machucado de faca.


Chegança

I - Na avidez de dar enfim com o costado no repouso, ele apeou de mala em mãos e um risinho assim assim. Sem mágoa ou quê de remorso, de certo só as incertezas. Tantas, de encher embornal. Arrobas de maus presságios se anunciavam na tez, cheia de pés-de-galinha. Morena em casa não tinha, na tina d’água um cabelo – longo ele era, se via, mas a quem seu pertencer? Caneta tinteiro, umas notas de mil réis, baixela de prata luzia. Luzia, nome de gente, de quem tirava casquinha dia sim, dia não, na casa pegada à quitanda lá no antro de onde vinha. Mas muito sem compromisso, anéis nem mesmo de lata. Pra que sarna a se coçar? Velhas de véu no entorno, e vítrea clareira se inchava pra cima dele, o coitado. Assim passou aquele dia, como passavam-se os outros, no vácuo do haver nadinha. Daquele jeito é que era, melhor que se acostumasse.


AO MEU PAI

Eu ando atrás da palavra, eu juro que ando. A que talvez esteja no dicionário que outro dia mesmo você me perguntou se deveria ter em casa, para seus versos e rimas. Lembra, num dos últimos emails que você me passou, o assunto era o dicionário. Foi quando você – bem a seu modo, sem muita cerimônia – resolveu ficar mudo. E palavras costumam perder serventia quando se emudece.


ABBEY ROAD

LADO 1

- Vou começar bem fácil, depois a gente vai esquentando.
- Manda.
- Faixa dois do Let it Be?
- Dig a Pony.
- Quantas músicas tem o Álbum Branco?
- Trinta.
- Qual o fotógrafo da capa do Rubber Soul?
- Robert Freeman.
- Quem era a Martha, da música Martha My dear?
- A cadela do Paul McCartney.
- Quem inspirou Something?
- Pattie Boyd.
- O que Tia Mimi disse para John Lennon, quando ele comprou a primeira guitarra?
- "Você nunca vai ganhar a vida com isso".


Quem quiser que conte outra

Num reino muito distante vivia Branca de Neve, que, já beirando os 50, entraria com uma denúncia no Procon ao constatar que não seria feliz para sempre coisíssima nenhuma, conforme prometera o estúdio de animação. Frustrada com o casamento, enganaria rotineiramente o príncipe sem maiores dramas de consciência, cada dia da semana com um anãozinho – mas sempre com camisinha. No caso, camisinhazinha.


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