As
Comemorções do 13 de maio em Uberaba
Autoria:Tenarêssa Aparecida de Araújo
Della Líbera, advogada, pós graduada em Direito Tributário
pelo IBET.
Fotos: URA ONLINE
OS CONGOS DE UBERABA
A
mais de cem anos, no dia 13 de maio, as ruas de nossa cidade são
tomadas por cores e bandeiras, os quais simbolizam os diversos congos
existentes.
Mas o que seria o 13 de maio? O que seria o congo? As respostas
só foram encontradas após um longo diálogo
com o congadeiro Bruno, do congo Os Carijós.
No ano de 1888, aos treze dias do mês de maio, a então
princesa Isabel, lançou uma lei que abolia a escravatura
no Brasil. Neste dia, por volta das dez horas da manhã, já
haviam, em todo território Nacional, rumores sobre a abolição
da escravatura, rumores esses que foram confirmados às três
horas da tarde.
Para
comemorar a tão sonhada e merecida LIBERDADE, os negros saíram
pelas ruas em festividades, festividades essas que perdurou até
o dia 15 de maio. Portanto, no dia 13 de maio comemora-se a abolição
da escravatura no Brasil, ocorrida, frisa-se, no ano de 1888.
O congo é o meio utilizado pelos negros para comemorar o
13 de maio. O congo chegou ao Brasil através dos escravos
trazidos da África. Na época da escravatura, fato
público, a Igreja Católica, através de seus
clérigos, pregavam aos senhores de escravos que os negros
não tinham alma, portanto, não podiam freqüentar
a Igreja.
Os negros, após serem excomungados da igreja, passaram a
realizar, diariamente, rituais religiosos nas senzalas. Os escravos
mais velhos acreditavam que, através destes rituais, podia-se
manter contato espiritual com os escravos que haviam falecido após
tentar fugir.
Não
era todas as noites que os negros faziam uso de tambores, mas tão
somente quando os senhores de escravos davam animais (porcos, resto
de bovinos, galinhas, etc), momento em que se retirava as peles
para confeccionar os respectivos instrumentos. Importante ressaltar
que o barulho produzido (canto, tambores) tinha que ser abafado
para que os Senhores de Escravos não escutassem, pois se
tal ocorresse os negros eram açoitados, às vezes até
a morte.
Os Senhores de Escravos se com portavam desta maneira frente ao
ritual dos negros por que a igreja taxava tais rituais como demoníacos,
embasando-se na tese de que, frisa-se, negros não teriam
alma.
A
título de ilustração, nestes rituais é
que se originou a tradicional FEIJOADA, posto que após retirarem
a pele dos animais, sendo a maioria porcos, os negros cozinhavam
a carne junto com feijão, acrescidos de temperos por eles
produzidos.
Em meio a estes rituais foram criadas muitas cantigas de congo,
canções essas que expressavam a saudade dos que partiram,
dos amigos e parentes separados após desembarcarem no Brasil
ou por terem sido vendidos e da terra mãe (África).
Cumpre salientar que o termo MACUMBA, muito usado para designar
ritual satânico, nada mais é do que um samba, uma cantiga
cantada pelos negros para comemorar.
Com
o passar do tempo, o congo foi tomando volume e forma. Atualmente
há a presença do casal festeiro, os quais simbolizam
a princesa Izabel e o José do Patrocínio (escravo
que incentivou a princesa Izabel a abolir a escravidão).
O congo seria como um quartel, possui nome, cor, posto de cada
componente. O congo é denominado de TERNO. Hoje existem na
cidade dezoito ternos de congados diferentes. Esses ternos percorrem
a cidade, dirigindo-se para pontos onde os escravos foram açoitados
e muito maltratados.
Esses
pontos seriam: Igreja Catedral, posto que nas proximidades do calçadão
se localizava o AÇORE onde os escravos eram punidos publicamente
para que os demais conscientizassem que se desobedecessem às
ordens de seus senhores ou tentassem fugir, seriam severamente castigados.
Muitos escravos faleceram neste local.
Até um certo tempo atrás, a missa em homenagem à
comemoração do 13 de maio era realizada na Igreja
Catedral, todavia, a Igreja Católica, mais uma vez, por motivos
não muito claros, proibiu a realização da missa
no referido local. Assim sendo, a missa passou a ser realizada na
Igreja São Domingos.
Outro ponto visitado pelos ternos é a praça do Grupo
Brasil, onde existe um busto da Princesa Izabel. Outro busto, também
visitado pelos ternos, exposto em nossa cidade é o da escrava
Mãe Preta, a qual se encontra na praça Santa Terezinha.
No
que pertine aos postos ocupados e suas funções dentro
dos congos, passa-se a expô-las: o primeiro posto são
os caxero (congadeiro encarregado de tocar as caixas) denominados
de CAPITÃO DE GUIA (são os responsáveis pela
condução dos congos).
O segundo posto são os PÉ DE GUIA (encarregados de
repassar as cantigas e as coreografias para quem está atrás),
as quais são as pessoas que se posicionam atrás dos
capitães de guia; o terceiro posto é os dos SOLDADOS
(são encarregados de responder às cantigas do capitão),
que se posicionam atrás dos pé de guia.
Os
ternos ficam dispostos em duas fileiras, tendo à frente os
capitães, e no meio encontramos a RAINHA, a qual tem por
função segurar a bandeira. Convém lembrar que
a rainha, por simbolizar a virgem Maria em meio aos apóstolos,
tem, obrigatoriamente, ser solteira e virgem, simbolizando a pureza
da mãe de Jesus. Ao lado da rainha pode-se ver algumas mulheres
ou crianças, as quais são chamadas de DAMA DE COMPANHIA
OU MADRINHA DE FEITÃO.
À frente do congo, empunhados com uma espécie de bastão
ou cajado, encontramos os CAPITÃES DE CONGO, que são
os reponsáveis de inciar as cantigas do congo, bem como informar
aos Pé de Guia o ritmo das cantigas. Lembra-se que o ritmo
é dito por intermédio de apitos, como por exemplo
um silvo longo representa uma batida (denominado pelos terno de
Primeira Marcha), dois silvos longos com intervalo significa que
a marcha tem que ser dobrada, dois silvos breves com intervalos
significa um rojão.
Um outro posto encontrado nos congos é o de DUQUE. Dentro
do mesmo congo existem várias gerações, sendo
que os mais velhos, que tem pó incumbência ensinar
os mais novos, denominados de GENERAL. O DUQUE seria o pai ou mãe
de um general. Melhor explicando: se dentro de um mesmo congo existe
um pai de noventa anos de idade e o filho de setenta, por exemplo,
o pai é denominado de DUQUE, e o filho de GENERAL.
Uma
das coisas que mais chama a atenção nestas festas
de congados são as cores das roupas utilizadas pelos festeiros.
As cores são escolhidas de acordo com o santo escolhido pelo
terno, uma vez que essas cores é quem vai identificar cada
terno.
Ao lado das cores, estão os nomes dos congos. Cada terno
tem sua denominação. Reunidos em um Centro localizado
no cruzamento das Ruas Portugal com Espanha, Centro esse pertencente
ao pai Luiz Carlos, podemos vislumbrar cada terno, cada nome, as
cantigas e as coreografias.
Peço vênia nesta oportunidade para registrar o meu
agradecimento ao pai Luiz Carlos por ter me recebido, e muito bem,
além de ter permitido que eu entrasse em seu Centro para
fotografar e acompanhar as festividades do 13 de maio do corrente
ano.
No
referido centro encontravam presentes os festeiros, os quais, frisa-se,
simbolizam a Princesa Izabel e o escrevo José do Patrocínio,
que foram saudados por todos os ternos ali presentes.
As cantigas são outro chamariz dos congos. Existem cantigas
que remotam da época das senzalas. Quando o congo se reúne
no quartel (termo utilizado para denominar residência) antes
de sair para a rua, se canta um cantiga saudando a rainha e a bandeira.
Canta-se, também, ainda dentro do quartel, uma cantiga para
saudar os antepassados, pedindo permissão para o terno sair
para a rua.
Após
arma-se o terno na rua, cantando despedindo-se para a Guerra (termo
utilizado pelos congadeiros para designar a foliar, o intinerário
realizado na cidade).
Transcreve-se alguns trechos de cantigas:
Canção usada para pedir proteção
para os antepassados:
"Vou penerar no mar
Vou navegar no mar
Não sei o que vou encontrar"
Canção agradecendo por ter tudo transcorrido muito
bem:
"Lá
invém rompendo aurora o dia
Lá invém rompendo o dia ó Maria
Chegô o vencedô da guerra e o sol raio ditráis
da serra"
Cumpre ressaltar que o congo mais antigo, que possui aproximadamente
cem anos, é o Penacho, fundado pela Senhora Vitória
Luzia, tendo as cores azul marinho e branco. Temos também
Os Carijós, cujas cores são vermelho e branco, tem
aproximadamente 80 anos.
Cumpre deixar consignado nossas homenagens a dois congadeiros pertencentes
ao congo Os Carijós, negros esses que muito alegraram nossa
cidade no dia 13 de maio, quer cantarolando suas cantigas pelas
ruas da cidade quer apresentando suas coreografias. Refiro-me, em
especial, aos falecidos Marlene e Marambaia, cidadãos que
fizeram, por muitos anos, com que as festividades do treze de maio
tornasse um ato, um alerta, um grito à sociedade de que o
tempo da escravidão acabou, e que os negros merecem respeito,
carinho e atenção. Provaram, com sua energia e alto
astral, que os negros são cidadãos como qualquer outro,
e que também ocupam lugar em nossa sociedade.
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