A equipe do Hospital João XXIII da Rede Fhemig e a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social fizeram um alerta, nesta terça-feira (3/06), sobre a importância da denúncia para a redução do número de crianças vítimas de agressão. Essas crianças são atendidas todos os dias no setor de emergência do hospital. A ação conjunta foi realizada no dia que antecede à data Mundial das Crianças Vítimas de Agressão.
A Fhemig aderiu à campanha “Proteja nossas Crianças”, do Governo de Minas. Para o presidente da Fhemig, Luís Márcio Araújo Ramos, a negligência também é uma forma de abuso. “As pessoas devem denunciar qualquer tipo de violência”, disse, acrescentando que o problema deve envolver toda a sociedade.
A superintendente de Direitos Humanos da Secretaria de Desenvolvimento Social, Márcia Martini, elogiou a iniciativa da Fhemig. “Ao lançarmos a campanha ‘Proteja nossas crianças’, buscamos sensibilizar a sociedade para solucionarmos este problema. Sem a denúncia, não temos instrumentos para planejar e executar políticas públicas. Por isso, reconhecemos a importância do engajamento da Fhemig na campanha”. Desde que a campanha começou a ser veiculada, há dez dias, o número de denúncias aumentou, em média, 100% O número do Disque Denúncia é: 0800-311119.
Agressividade
No primeiro quadrimestre deste ano, foram 377 casos, sendo 39 até 12 anos e o restante entre 13 e 19 anos. A agressão corpo a corpo foi responsável por 12 atendimentos em crianças e em 137, em adolescentes, seguido de agressão com objeto cortante (7) e perfurante (6), entre crianças. Já entre os adolescentes, o segundo motivo mais prevalente foi por arma de fogo (81 casos); outro tipo de agressão (41 casos). Em todo o ano passado, foram registrados 1.383 atendimentos do público até 19 anos vítimas de violência.
“O que mais nos chama a atenção é que as vítimas estão cada vez mais precoces, bebês, e que está aumentando o grau de agressividade, gerando lesões mais graves”, avalia o diretor do Hospital João XXIII, Antônio Carlos Barros Martins.
Segundo o pediatra Antônio de Pádua Mesquita Neto, do Hospital João XXIII, não é difícil descobrir se uma criança está sendo agredida, mesmo que os responsáveis pelo encaminhamento à unidade de emergência tentem omitir informações. Muitas vezes, o próprio agressor leva a vítima para atendimento médico. “As histórias são mal contadas, não batem com os fatos narrados e com a extensão de uma fratura, de um hematoma ou de escoriações”, afirma Pádua, acrescentando que há diversas maneiras de se chegar ao diagnóstico. Ele observa que um exame de raio X do corpo inteiro permite visualizar fraturas antigas.
O médico ressalta que marcas roxas no braço podem levar a equipe a pedir uma tomografia do paciente. Isso porque o fato de uma criança ser chacoalhada, dependendo da força do agressor e da idade da vítima, pode levar a uma lesão cerebral, batizada de “síndrome do bebê sacudido”.
“A gente nunca afasta a possibilidade de maus tratos. Tratamos a lesão e pesquisamos a situação junto ao Serviço Social. Não temos o papel de polícia, mas nossa função maior é proteger essa criança”, explica o pediatra. Os casos de suspeita de agressão são encaminhados à assistência social e, posteriormente, ao Conselho Tutelar. Segundo ele, esta continuidade pode ser demorada, porque toda a dinâmica familiar da vítima deve ser avaliada. Muitas vezes, o agressor é também uma vítima de agressões na infância, tem problemas com álcool ou drogas e uma baixa qualidade de vida.
A psicóloga Roberta Lobato Andrade analisou o perfil deste agressor. “A questão da agressividade vêm de um distúrbio de personalidade, da dificuldade de lidar com a frustração, do respeito com o outro. Acreditam, inclusive, na própria mentira, como se fosse uma verdade”.
Como identificar
O comportamento de uma criança que está indo bem na escola, é participativa e, de repente, passa a não ter um bom desempenho, fica triste e deprimida pode ser um indício de agressão e violência em casa. Queimaduras em locais inesperados, como palma das mãos, cuja lesão é muito dolorosa, e marcas roxas nos braços podem ser sinais de violência. Outra suspeita, diz a pediatra Dilce Maria Andrade Silva, são crianças que, reiteradamente, vão ao serviço de emergência.
“Crianças e adolescentes que, durante o atendimento psicológico, apresentam comportamentos atípicos devem receber uma atenção especial. São aquelas que desenham ou se preocupam com temas inusitados, com conotação sexual, isolamento social, medo e esquiva do exame médico e dificuldade de se concentrar, por exemplo”, enumera a psicóloga Roberta Lobato.
A equipe observa que a vítima estabelece uma relação de cumplicidade com a família. Ela não chega a delatar o agressor, pois vai ter que voltar para a casa. Apesar de muitas vezes a violência ser cometida no ambiente familiar, não é um parente que denuncia, mas uma professora ou vizinho. Além do tratamento clínico, a vítima é acompanhada pelo serviço social e pelo Conselho Tutelar. Caso seja constatada uma agressão mais grave, é assegurado à criança acompanhamento jurídico.
São realizadas sindicâncias na casa, no bairro e na vizinhança para descobrir se o problema já é histórico. O primeiro contato que a Justiça faz é com a família para verificar se há condições de ela ficar com a criança. Caso contrário, a vítima é encaminhada para família substituta ou abrigo. Os casos de agressão a crianças sempre existiram. A violência não ocorre apenas no meio mais humilde, mas em todas as classes sociais. Geralmente, em 90% dos casos, quem pratica violência é porque sofreu violência em algum momento.
Participaram da coletiva, realizada nesta terça-feira (3), no Hospital João XXIII, os superintendentes da Sedese, Márcia Martini (Direitos Humanos) e Ivan Ferreira (Políticas para Crianças e Adolescentes), o pediatra Antônio de Pádua Mesquita Neto (HJXXIII), a assistente social Flávia Pereira Lage Barbosa (HJXXIII), a psicóloga Roberta Lobato Andrade (HJXXIII) e o diretor-geral do Hospital João XXIII, Antônio Carlos Barros Martins.