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VOTO ELETRÔNICO BANIDO NA HOLANDA
Publicado em 06/11/07
Por José Rodrigues Filho*
Com a decadência da segurança do voto eletrônico,
a Holanda foi o primeiro país do mundo a banir as urnas eletrônicas
utilizadas naquele país e fabricadas pela empresa Nedap. As urnas
brasileiras vem sendo fabricadas pela multinacional Diebold. É
provável que a Holanda tenha dado um exemplo para o mundo, sobretudo
para o Brasil.
Antes das eleições de novembro de 2006, a fundação
holandesa denominada wijvertrouwenstemcomputersniet", ou seja,
"não confiamos em computadores", iniciou uma campanha
e um sério debate sobre os riscos do voto eletrônico, na
Holanda, levando o Governo em dezembro de 2006 a criar duas comissões
para investigar o processo eleitoral. Para aumentar a desconfiança
da população, em outubro de 2006, um grupo de hackers
holandeses mostrou como se poderiam fraudar as urnas eletrônicas.
Há poucos dias, uma das comissões, presidida pelo Ministro
de Estado, Korthais Altes, apresentou seu relatório, que foi
motivo de comemoração por parte da fundação
acima citada. Conclusão principal: o voto de papel (cédulas)
é preferível ao voto eletrônico, uma vez que torna
possível qualquer recontagem de votos, além de ser mais
transparente. Contudo, na prática, é reconhecido que há
problemas com a contagem de votos de papel. Porém, qualquer fraude
numa contagem de votos de papel pode ser verificada e a fraude de urnas
eletrônicas, que poderá ser maior, dificilmente é
percebida. Portanto, o grande benefício do voto em cédula
de papel, é o de que o resultado de uma eleição
não depende de armazenar votos em memória eletrônica,
que se torna quase impossível de se verificar, como no caso das
urnas eletrônicas.
Para reforçar ainda mais a insegurança do voto eletrônco,
um juiz holandês, há poucos dias, declarou que o uso de
urnas eletrônicas na Holanda foi ilegal. Com esta decisão
até parece que o juiz confirmou o que a fundação
acima citada quis informar a sociedade holandesa: "não confiamos
em computadores". Ora, se as máquinas de votar são
inseguras, é mais do que ilegal adotá-las para registrar
votos numa eleição.
O Governo holandês já declarou que as orientações
da Comissão serão aceitas e o voto eletrônico será
banido no país. Com isto, a Holanda se junta aos países
que estão exigindo maior segurança nas eleições.
Na California, Estados Unidos, o voto eletronico já foi basicamente
rejeitado. No Reino Unido, a Comissão Eleitoral deseja parar
todos os projetos pilotos sobre voto eletrônico. A Irlanda, por
sua vez, rejeitou as urnas holandeses por serem inseguras. Quebec e
Italia decidiram esquecer o uso de computadores em eleições.
Com o que aconteceu na Holanda, a Alemanha já começou
a questionar a utilização de urnas eletrônicas.
No Brasil, depois de dez anos de propaganda sobre a segurança
das urnas eletrônicas, a maioria da população ainda
acredita nelas, apesar de duros protestos de alguns poucos especialistas
e acadêmicos. São desconhecidas as iniciativas de tornar
o sistema de votação eletrônica no Brasil mais seguro
e transparente. Por outro lado, dificilmente o Brasil terá as
condições econômicas de manter um sistema mais transparente
e seguro, no sentido que as urnas eletrônicas possam ser auditadas,
verificadas e dotadas da capacidade de imprimir o voto. O custo social
é muito elevado. Então, o que fazer? Voltar ao passado?
Se é para não se confiar nos computadores, talvez a saída
para o Brasil seja a de adotar uma solução ou um sistema
mais simples, seguro e transparente. É só adotar a proposta
holandesa: vota-se em cédulas de papel e contam-se os votos através
de leitura óptica. Em resumo, vota-se em cédulas e contam-se
os votos eletronicamente.
Mesmo banindo o voto eletrônico na Holanda, o governo não
deixa de ser criticado e considerado incompetente pelos holandeses,
por não ter considerado que as tecnologias existentes não
permitem ainda uma votação segura. Ademais, foram milhões
gastos com uma tecnologia que só trouxe frustações
para a sociedade. Isto vem confirmar o que se percebe neste mundo das
tecnologias: muitos negócios e pouca transparência, participação
e democracia.
* José Rodrigues Filho foi pesquisador nas Universidades
de Harvard e Johns Hopkins. Atualmente é professor da Universidade
Federal da Paraíba.
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