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Seções » Especial DOENÇAS NA ÁGUA Publicado em 07/08/07 A água de má qualidade interfere em todo processo produtivo de frutas e seus efeitos podem chegar até o consumidor. Para evitar esse transtorno, pesquisadores e produtores criam alternativas para lavoura mais saudável. Carmem Moraes A qualidade da água tem papel fundamental na fruticultura. Ela é um meio de transmissão de doenças em todas as etapas do processo de produção. Por isso, o produtor deve ficar atento às contaminações dos mananciais de água, pois elas podem comprometer a qualidade da água usada para irrigação e nos procedimentos pós-colheita no packing house. A água deve estar adequada às condições sanitárias para não transferir contaminantes, de origem física, química e principalmente biológica (microrganismos) às frutas. A utilização de água de má qualidade na produção de frutas pode prejudicar tanto o seu desenvolvimento quanto por em risco a saúde do consumidor, especialmente nos casos de frutas ingeridas in natura, explica o pesquisador da Unicamp, José Euclides Paterniani, especialista em qualidade da água. O produtor pode utilizar qualquer fonte de água para a irrigação. Mananciais superficiais (rios, lagos e reservatórios) tem qualidades distintas de acordo com a água que recebem, principalmente os rios. Já lagos e reservatórios têm geralmente uma água com qualidade mais constante e contam com a possibilidade de sedimentação de impurezas, principalmente de origem física. São mais suscetíveis, porém, à proliferação de algas, se houver uma contaminação por matéria orgânica. O agricultor deve ter o cuidado de providenciar uma análise, antes de usar a água na sua propriedade, para conhecer as características qualitativas e quantitativas desta fonte, recomenda Paterniani. Para ele, água da torneira é normalmente a de melhor qualidade, pois passou por processo de tratamento, porém tem um custo elevado e a maioria das propriedades rurais não tem acesso à água tratada devido a localização. CONHECER PARA USAR Na zona rural, muitas vezes, a falta de água tratada e esgoto canalizado são grandes problemas. Os dejetos humanos são jogados diretamente nas chamadas fossas negras, que não são mais do que buracos abertos no solo. Por isso, o manejo da água, em qualquer cultura, deve ser feito sempre com muito cuidado, principalmente no que se refere à qualidade da água, a fim de evitar ou minimizar qualquer possibilidade de transmissão de doenças vindas de um ambiente externo (água contaminada com esgoto doméstico), bem como no próprio ambiente de cultivo (contaminação por uma planta doente). O importante é conhecer sempre as características qualitativas da água a ser usada e adotar técnicas de tratamento, desinfecção, se for o caso, como forma de prevenção, alerta Paterniani. Segundo ele, lavar uma fruta no packing house com água contaminada pode comprometer a qualidade final do produto, também no que diz respeito a sua durabilidade. Além disso, é sabido que alguns microrganismos patogênicos de vida aquática podem sobreviver por cerca de trinta dias em frutas e vegetais, podendo transmitir doenças ao ser humano, mesmo após passar pelas prateleiras de feiras e supermercados, acrescenta. Se não houver controle, o esgoto não tratado pode resultar na contaminação do lençol freático e na transmissão de doenças para as frutas e legumes e, conseqüentemente, para o ser humano. O pesquisador da Embrapa, Antônio Pereira Novaes, preocupado com esse problema, criou um sistema chamado fossa séptica biodigestora. Essa fossa recebe o esgoto, canalizado direto do vaso sanitário e o transforma em adubo orgânico, pelo processo de biodigestão. O produtor que instalar o sistema, composto por quatro caixas dágua interligadas e enterradas no solo, precisa apenas depositar esterco de vaca fresco, diluído em água, uma vez ao mês.Esse procedimento garante que os microorganismos do esterco digiram os restos de alimento das fezes e, desta forma, impeçam a proliferação de doenças, já que o germe patogênico não consegue sobreviver e se reproduzir, explica Novaes. O que resta deste tratamento pode ser usado como adubo. Impede-se, assim, a contaminação dessa água, que, se for usada na produção das frutas, pode infectá-las, resume Novaes. Com a tecnologia, o esgoto não é despejado diretamente no solo e, sim, aproveitado, deixando o lençol freático, as plantações e os poços caseiros livres de microorganismos indesejados. EXEMPLO BEM SUCEDIDO O manejo que o fruticultor deve fazer na propriedade precisa atender às suas necessidades e as da produção. O segredo, para Paterniani, é conseguir utilizar a água dentro da propriedade seguindo o princípio da sustentabilidade, ou seja, utilizar água de forma racional, sem desperdício e sem poluir ou contaminar com produtos usados durante o manejo. É isso o que faz o produtor de macadâmia, em Jaboticabal (SP), Aleudo Coelho Santana. Ele foi a cobaia do sistema de fossa séptica biodigestora. Eu já estava atrás de uma alternativa para o esgoto da minha fazenda, quando o pessoal da Casa da Agricultura sugeriu que conversasse com o pesquisador Novaes sobre esse projeto que, na época, ele estava desenvolvendo na Embrapa, contou Santana. O projeto foi instalado em caráter experimental, em 2001, na Fazendinha Belo Horizonte e, segundo o produtor, deu resultados esplêndidos. Mensalmente, ele coleta 2 mil litros de adubo, que, como ele ressalta, não tem cheiro. O pesquisador Novaes conseguiu uma coisa maravilhosa, transformar um problema em lucro, elogia Santana. Novaes acrescenta que o biodigestor produz até 4,5 toneladas de adubo por ano, gerando uma enorme economia. A fossa é uma solução barata, pois o custo para implantação do sistema é cerca de R$1 mil, segundo dados do produtor Aleudo. Com ela, é possível, ao mesmo tempo, ter saneamento básico na zona rural, adubo orgânico e efluentes isentos de germes patogênicos para o homem. Como incentivo, as Casas da Agricultura do Estado de São Paulo oferecem financiamento, por meio do Programa Bacias Hidrográficas da Cati, para os produtores interessados em instalar a fossa séptica biodigestora em suas propriedades. José Euclides Paterninani lembra que há outras formas de contaminar o lençol freático e provocar alterações nas propriedades físicas do solo, além do esgoto. Uma delas é utilizar água em excesso, pois pode lixiviar (lavar) o solo e retirar desse alguns nutrientes importantes, que são levados às camadas mais profundas do solo, dificultando a absorção por parte das plantas. Por isso, as características do solo devem ser conhecidas quando se pretende fazer a irrigação, esclarece. Existem técnicas de tratamento de água e técnicas
de conservação de mananciais e fontes. Uma delas, recomendada
por especialistas para preservação e conservação
da qualidade da água, é plantar árvores, de preferência
espécies nativas da região, próximas das suas margens,
recompondo a mata ciliar. O produtor Aleudo conta que há
mais de 35 anos está repondo a Mata Ciliar de sua fazenda e já
se aproxima dos 20% exigidos pela Lei de Reserva Legal. Ele acredita
que o meio ambiente está acima do lucro e, para ele,
é um grande prazer poder ver as árvores crescendo.
Essa prática reduz a erosão das margens de mananciais,
bem como o aporte de sedimentos e agroquímicos por meio de chuvas
e água de drenagem de irrigação, valorizou
Paterniani. Apesar de não existir um órgão que fiscalize a qualidade da água para irrigação, há a fiscalização do produto final feita pelo PIF (Produção Integrada de Frutas), juntamente com o Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento e do Inmetro, que tem como objetivo a produção e obtenção de frutas com técnicas mais apropriadas e de melhor qualidade para atender aos mercados cada vez mais exigentes. Há também indicadores, por meio de parâmetros qualitativos que, uma vez seguidos, minimizam os riscos decorrentes do uso de água de má qualidade. Se tomados os devidos cuidados, o produtor terá excelentes resultados, que, segundo Paterniani seriam: a redução dos riscos de entupimento de gotejadores na irrigação localizada; redução das perdas pela propagação de doenças específicas de cada cultura; redução da contaminação da cultura irrigada e/ou lavada no packing house e, finalmente, a redução dos riscos à saúde do consumidor. Matéria retirada da Revista Frutas e Derivados |
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