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Seções » Especial

Carnaval: cultura ou comércio?
Publicado em 16/02/07

Por Marcus Bennett

Conhecido como uma das maiores expressões culturais do mundo, o carnaval brasileiro tem mudado muito o seu conceito de festa popular. Quando surgiu com a chegada de portugueses das Ilhas da Madeira, Açores e Cabo Verde, em 1723, a principal diversão dos foliões era jogar água, ovos e farinha uns nos outros. Bem diferente da dispendiosa folia que vemos hoje.

No início do século XX, já havia diversos cordões e blocos que desfilavam pelas ruas das cidades durante o Carnaval. Nos anos 60 e 70, a brincadeira era simples, popularesca, com acesso a todos, seja nas ruas ou nos clubes. No entanto, percebemos há um tempo uma mudança radical na tradição da festa, que a tornou um mero produto comercial, importando agora, mais do que a alegria do folião, o estatus de se estar vestindo a camisa de determinado grupo ou trio elétrico. Hoje, o poder aquisitivo é que decide o grau de diversão que teremos.

O folclorista e etnólogo potiguar Luís da Câmara Cascudo já havia deixado seu registro sobre o assunto: "o carnaval de hoje é de desfile, carnaval assistido, paga-se para ver. O carnaval, digamos, de 1922 era compartilhado, dançado, pulado, gritado, catucado. Agora não é mais assim, é para ser visto".

Em Salvador, onde acontece a maior concentração popular nessa época do ano, a comercialização dos famosos "abadás" gera uma segmentação entre os próprios foliões, pois limitam a entrada aos blocos apenas aos que têm melhores condições financeiras. Isso faz com que boa parte da população fique de fora da festa. "Antes, o carnaval era feito entre amigos, hoje existem os blocos de trios elétricos que criaram uma exclusão social, pois são os brancos quem têm o maior poder aquisitivo, portanto, a maior parte dos negros é excluída dessas festas. Em Salvador, a festa é negra porque a maioria da população é negra, mas são os que menos participam de trios, pois é a minoria que tem condições", afirma Vovô, fundador do bloco afro-baiano Ileyaê. "Hoje a festa do carnaval da Bahia é profissionalizado, só faz quem tem muito dinheiro", complementa.

Já o presidente do grupo Olodum, João Jorge Rodrigues, entende como necessário tornar a cultura interessante para os negócios, mas vê como revoltante a força do capitalismo destruir as expressões de cultura afro-popular, ainda mais com a segmentação que produz os preços dos blocos de trios elétricos. Na verdade, "o carnaval cresceu por conta do colorido. Os trios foram criados para unirem as pessoas, mas hoje eles apenas refletem uma cidade desigual, como o ano inteiro, entre homens e mulheres e, principalmente, entre brancos e negros". João Jorge aponta ainda, a desigualdade no tratamento entre os diversos tipos de blocos carnavalescos. "Há uma enorme dificuldade em encontrar patrocínios para os blocos afoxés, o que demonstra um verdadeiro racismo cultural", nos conta. E aponta ainda que "mudou muito o sentido da expressão cultural do carnaval. Hoje temos a existência de camarotes com DJs e pistas de dança, desvirtuando totalmente a essência da festa. E outro problema, é que o carnaval só é negro por conta dos blocos afros e afoxés e, claro, por conta de 83% da população ser negra. Dessa forma, o carnaval é feito por dois segmentos: pelos que fazem a festa e pelos que apenas vêem".

No entanto, mesmo com a mídia mais atenta ao carnaval dos trios elétricos, aos quais para se ter acesso muitos pagam a quantia de até mil reais por dia de diversão, não podemos esquecer que em Salvador existem vários blocos negros como o Olodum, o Ileyaê, e blocos de rua, como o Afoxé Filhos de Gandhi que, acima de tudo, continuam mantendo uma tradição de festa popular, com apresentações abertas ao público e folia garantida com poucos gastos.


Fonte:
Fundação Cultural Palmares


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