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Voz do Cerrado
VÔMITO E INANIÇÃO

Quebra de “decoro” ambiental da cúpula ruralista e o “decoro” verbal de Minc.
O que dói mais?
Carlos Perez *

e-mail:vozdocerrado.carlosperez@hotmail.com
http://vozdocerradocarlosperez.blogspot.com
Publicado em 02/07/09


No último dia de sessão da Câmara Municipal em 2008 a cúpula ruralista (aqui não incluo todos os ruralistas, pois existem aqueles que respeitam o meio ambiente) revogaram a lei do Plano Diretor (discutido democraticamente com toda a população) que proibia o cultivo de cana no perímetro urbano.

Prefeito, Presidente da Câmara (na época Lourival dos Santos), cúpula ruralista e o próprio Borjão, ignoraram despacho do Ministério Público que representava ação civil pública movida por centenas de uberabenses, pedindo um simples cumprimento da lei, e simplesmente mudaram a lei em benefício de um setor.

Muito bem organizados, esses ruralistas agiram na surdina, amparados pelo poder público. A população sequer ficou sabendo da tal votação que foi uma vergonha.
Sequer os representantes legais da ação no Ministério Público foram informados.
Tal atitude poderia ser considerada improbidade administrativa, podendo o Presidente ter sido cassado, inclusive. Imagino que tal cassação terminaria em “pizza” pra variar.

Saindo da esfera de gabinete, vemos aturdidos a natureza sendo destruída sem piedade.
A população sendo obrigada a conviver com as queimadas que nenhuma secretaria fiscaliza. Denúncias em âmbito nacional, recaindo principalmente no setor sulcroalcoleiro, com trabalhadores rurais em condições análogas à escravidão. Nascentes, árvores, sedes de fazendas sendo enterradas. Animais morrendo queimados ou atropelados em rodovias. Reservas legais sendo averbadas fora das regiões exploradas. Reservas indígenas e quilombolas sendo ameaçadas pelo agronegócio.
Terras de grileiros sendo legalizadas por essa cúpula vergonhosa.
Depois de destruírem o nordeste desde os tempos de Brasil Colônia agora querem acabar de destruir o que restou. Em nome de uma demanda alimentar? Pura mentira.

Quantos absurdos ouvi no “Fórum de Legislação Ambiental” promovido pelo Sindicato Rural na ABCZ.
Ouvi o ministro Stephanes dizer horrores. O Deputado Marcos Montes defendendo averbações de reserva legal fora do nosso município.
O Deputado Paulo Piau criticando o Greenpeace e nós ambientalistas.
Agora querem a cabeça do Carlos Minc? Que nome se pode dizer de todas essas atrocidades que relatei?
Será que as árvores caem sozinhas e as queimadas acontecem por autocombustão?
Há uma mão assassina e covarde por traz de tudo isso.

Será que a revogação de leis que beneficiavam a população e o meio ambiente aconteceram anonimamente?
Que nome se pode dar a isso? "Vigarice", como disse o Ministro Carlos Minc?
Particularmente não sei que nome dar. Sequer consigo sintetizar em uma palavra tamanha monstruosidade.

Se o vereador Borjão sentiu vontade de vomitar ao ouvir Carlos Minc, o que será que deveria eu e o companheiro Celso sentirmos, quando comentamos com ele sobre a necessidade de revermos a volta da proibição da cana no perímetro urbano e este respondeu que por ele poderia se plantar cana até na Praça Rui Barbosa? Obviamente que não levamos a sério seu comentário. Ou será que deveríamos?
Nesse caso, vômito seria pouco.
Enfim, tudo isso tem servido para acabar com a hipocrisia de "sustentabilidade" apregoada por essa cúpula ruralista.
Nesse país, dizer a verdade é um grande pecado.

Depois de tudo o que a bancada ruralista tem feito para acabar com os benefícios ambientais garantidos na legislação, o que será que esses poderosos do agronegócio esperavam ouvir de um ambientalista?

Que eles são boa gente? Que estão corretos? Que são defensores do planeta?
Ora, tenham paciência.
O Minc é humano e não tem a submissão e pureza dos animais e flores do campo, que são mortos aos bilhões e sequer podem defender-se.

Se nós ambientalistas fôssemos vomitar para cada absurdo que vemos e ouvimos, já teríamos morrido de inanição.
Infelizmente, temos "representantes" na Câmara Municipal e Federal, no Executivo Municipal e Federal, que estão a serviço de grupos econômicos e não do bem comum, custeados com o nosso dinheiro. Que nome se pode dar a isso?
Vigarice? Acho pouco este termo, e até suave demais.
Na verdade estamos sendo roubados literalmente, democrática e legalmente. É imoral, mas é legal. Trouxas somos todos nós ambientalistas e cidadãos comuns. E eles sabem disso. E riem às nossas custas.
Até quando? Com certeza meus filhos, netos e bisnetos possivelmente continuarão sendo “trouxas” desses...

Uma coisa aprendi com a idade. O caos tem muitos estágios e estamos longe de chegarmos ao final.
O que restará? Talvez uma infinidade de trouxas, bancando uma minoria de espertos.
E a natureza? Artificializa-se. Esse tipo de “Homem” não precisa de nada, além de seu próprio ego.
Deus? Há muito já foi esquecido em meio aos interesses mundanos.



Carlos Perez - Ambientalista, Músico, Escritor, Produtor Cultural e Publicitário.