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Sua Opinião
Tangíveis
e Intangíveis
Luciano Pires
www.lucianopires.com.br
luciano@lucianopires.com.br
Publicado em 20/06/06
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Ah, as estatísticas! Durante a Copa será um porre...
O time que menos gols tomou, o jogador com mais eficiência nos
passes, a equipe com mais velocidade de reposição de bola...
E depois da Copa, as eleições e suas pesquisas de opinião.
Mais estatísticas. Nada a estranhar, já que nossa vida
está completamente tomada por estatísticas.
Mas estatísticas, nas mãos de tecnólogos e políticos,
são um perigo. Servem a qualquer interesse. Afinal, estatísticas
são números. E tentar reduzir a complexidade de nossas
vidas a um número é, no mínimo, burrice.
Uns exemplos? Pegue um homem e uma mulher. Estatisticamente, cada um
tem um testículo. Essa verdade estatística é uma
mentira factual. Outro velho exemplo: fulano afogou-se numa piscina
que tem, em média, um metro de profundidade... Em média.
Num lado tem 40 centímetros, no outro três metros... Outro
exemplo: estatisticamente a queda das torres gêmeas em New York
significou 3.000 mortos. Só. Nenhuma estatística conseguirá
traduzir o impacto que aquele atentado teve em nossa vida, nas questões
intangíveis, na diminuição da liberdade de ir e
vir, no medo...
Estatística é como rúcula: só é boa
de engolir quando bem acompanhada...
Onde quero chegar? Quero refletir sobre os prejuízos com a sucessão
de escândalos políticos nestes 12 meses em que o Brasil
parou, enrolado no mensalão e seus afluentes.
Cansei de ler sobre os bilhões movimentados irregularmente, sobre
o fulano que pegou 400 mil aqui, o outro que tinha 100 mil na cueca,
mais outro que desviou 50 mil da verba que ia para merenda escolar,
dos milhões roubados com o escândalo das ambulâncias
e outras barbaridades.
Todas as notícias contabilizam os prejuízos. Já
sabemos quanto de dinheiro foi roubado, quanto tempo perdemos, quantas
pessoas deixaram de receber ajuda, quantas salas de aula deixaram de
ser construídas, quantos bebês morreram por falta de socorro,
quanto custou o aerolula, etc, etc, etc.
Mas só sabemos daquilo que pode ser traduzido em números.
Estatísticas.
Onde está sendo contabilizado o intangível? O que nos
foi roubado em amor próprio, auto-estima e valores morais? Quanto
vale a morte da credibilidade dos políticos? A falta de confiança
nas autoridades? Os meses de aulas canceladas por causa da greve na
universidade? Quanto vale o ano que perdemos discutindo o mensalão
e fazendo conchavos para as eleições enquanto projetos
de lei e reformas importantes mofam nas gavetas do legislativo, do executivo
e do judiciário? Quanto vale a aula desmotivada do professor
com salário ridículo e falta de estrutura? Quanto custa
o desencanto dos brasileiros com o Brasil? E qual será o maior
prejuízo? Os milhões desviados para a conta no paraíso
fiscal ou seu filho dizendo que quero ir embora deste país
de merda?.
Não dá pra contabilizar, não é?
Dos tesouros que carregamos ao longo da vida, os menos valiosos são
aqueles que podemos contabilizar: o dinheiro, as propriedades. O ouro.
Tudo isso tem preço. Podemos perder e recuperar. Mas os tesouros
que verdadeiramente importam, não têm preço. São
impossíveis de comprar, alugar ou emprestar. Nossa liberdade.
Nossa saúde. Nossos amores. O respeito. A credibilidade. A moral.
A honestidade. A educação. A cultura...
A morte desses valores intangíveis, cuja perda não é
sentida nem contabilizada, está na raiz de todos os nossos problemas.
Todos.
Mas, infelizmente, parece não haver mais homens e mulheres em
posição de liderança, com a capacidade de perceber
o valor dos intangíveis. Gente capaz de compreender o verdadeiro
prejuízo que esta geração está legando a
nossos filhos e netos.
A gente que está aí só enxerga as estatísticas
que interpretam o Bra$il.
Mas o Brasil que interessa não se traduz em números.
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