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Sua Opinião
O profissional social
Vandberg Barbosa Braz*

Publicado em 17/04/06


No Brasil, apenas uma pequena parcela da população tem a oportunidade de ingressar na universidade. Já para uma grande parte dela, resta a exclusão, que não se resume na impossibilidade de fazer um curso superior, mas também envolve a exclusão de serviços básicos de qualidade, como de saúde, educação e saneamento. Serviços como esses deveriam ser garantidos pelo Estado, mas cada vez mais os governos neoliberais parecem se abster de sua função social. Assim como algumas empresas já estão fazendo, os privilegiados profissionais liberais poderiam se tornar sociais, oferecendo seus conhecimentos e suas habilidades para incrementar de alguma forma a qualidade de vida da parcela excluída da sociedade.

O profissional social não seria mais um assistente social, como já conhecemos, cujo número está longe de atender a demanda que o País precisa. O profissional social seria o profissional liberal: o médico, o engenheiro, o administrador de empresas, o dentista, o advogado, enfim qualquer um disposto a doar um pouquinho de seu tempo, a dispensar algumas horas que sejam de suas agendas, estejam elas repletas de contratos com clientes ou não, para atender populações carentes.

O profissional social compartilharia com os marginalizados da sociedade os amplos conhecimentos e serviços aprendidos por quem está no topo da pirâmide intelectual, em cuja base existem milhões de analfabetos. Cada profissional transmitiria suas habilidades próprias. Os moradores do bairro, da favela ou da comunidade carente poderiam se juntar no final de semana para assistir palestras do nutricionista sobre como evitar problemas do coração por meio da alimentação; do administrador, sobre como gerenciar melhor o pequeno estabelecimento comercial; do psicólogo poderiam vir orientações de como abandonar vícios e de como os pais poderiam se relacionar melhor entre si e com os filhos. O médico poderia dispensar alguns atendimentos semanais para pessoas da comunidade da qual se propôs auxiliar, o engenheiro civil poderia ajudar as famílias a projetarem melhor suas casas e o professor universitário poderia dar aulas noturnas de alfabetização de adultos. Enfim, são inumeráveis as formas pelas quais os profissionais poderiam dar a sua contribuição para melhorar a vida nas áreas pobres de suas cidades.

A justificativa para o profissional liberal também se tornar social poderia estar na retribuição à sociedade pela oportunidade rara de alcançar o ensino superior. Cada membro da sociedade, especialmente os mais privilegiados, e nesse caso os profissionais liberais, deveriam não traduzir ao pé da letra a lógica de mercado, segundo a qual qualquer serviço prestado deve ser seguido de remuneração. A remuneração poderia vir não na forma de dinheiro, mas na satisfação de ajudar aqueles que não tiveram a chance de subir na escala intelectual e social. Poderia vir também na forma de ter a consciência tranqüila por estar contribuindo de alguma maneira para combater o caos social dos dias atuais. Caos que se passa, diariamente, aos olhos das classes sociais mais abastadas por intermédio das janelas fechadas de seus automóveis, especialmente com respeito à mendicância e à violência. Se analisarmos bem, esse caos também deriva da omissão dos letrados. Além disso, a tendência atual é de que as empresas passem a atuar na área social. Hoje, já não basta ter qualidade de serviços, é necessário se preocupar com o ambiente externo em sua área de atuação, seja social ou natural. E se pode dizer que os profissionais liberais funcionam como empresas, pois os mesmos têm receitas, despesas, competem entre si por clientes, e nesse caso, tendem a seguir a lógica empresarial. Logo, o profissional liberal que contribui socialmente seria mais bem-visto pela sociedade do que aquele que nada faz pelo ambiente externo a ele.

Assim, os profissionais liberais, privilegiados econômica e intelectualmente, em relação à imensa maioria de brasileiros que não tiveram a chance de progredir na escala intelectual, poderiam contribuir para melhorar a qualidade de vida dessas pessoas. Tornando-se também profissionais sociais, doando suas habilidades, conhecimentos e um pouco de seu tempo, ajudariam também a amenizar o caos social que se vê, e certamente receberiam a recompensa social pela preocupação com o ambiente externo a suas "empresas".


* Vandberg Barbosa Braz
Médico-veterinário formado pela Universidade Federal de Viçosa e Mestre em Veterinária pela Universidade Federal do Ceará