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Os e-mails que recebo de leitores são uma riquíssima
fonte de inspiração. Retratam fatos, sentimentos, visões
de mundo e me honram quando descubro que existe gente informada, interessada
e inteligente estabelecendo um diálogo internético comigo.
Mas certos e-mail são mais especiais que outros. São aqueles
que tratam de sonhos, de ideais, de paixões e de esperanças.
Aqueles que desnudam a alma de quem escreve. Como este, remetido por
Georgia, lá do Rio Grande do Sul:
“Luciano, eu estudei praticamente minha vida inteira em escola
pública. E você deve ter ciência da anêmica
produtividade que esse ensino nos proporciona. Professores de péssima
qualidade que devolvem aos estudantes a pobreza do contra-cheque numa
aula débil e limitada. Não vou culpar a todos, mas a maioria
confirma minhas palavras.
Concluí meu segundo grau, pasme: não sabendo o que eram
capitanias hereditárias. Passei a vida escolar ouvindo isso,
mas não fazia idéia do que se tratava. Decidi então
fazer vestibular para qualquer curso superior que me parecesse divertido
(afinal, estudo não tinha exatamente um sabor adocicado na minha
língua). Optei por Relações Públicas na
federal do Rio Grande do Sul. Média alta. Precisava estudar e
para isso era necessário saber o que eram as tais capitanias
hereditárias. Abri temerosa um livro de história e comecei
a ler... e ler... e ler... Não me satisfiz com história,
passei para português, geografia, biologia... continuei a ler,
ler... Tive a grata surpresa de perceber em mim a paixão pelo
estudo, pelo saber... Ou seja, uma tremenda CDF.
Em meio a essa descoberta, tomei a decisão de virar professora.
Mas não uma professora qualquer, minha idéia era ser uma
representante da educação estilo Kevin Kline em o Clube
do Imperador. Melhorar essa porcaria de ensino do qual eu sou fruto.
Bom, a história é que graças ao Prouni vou cursar
este ano a faculdade de geografia. Eu, sendo carente, consegui bolsa
integral.
Estou conseguindo a realização de um sonho. Prestes a
virar a partir de março uma universitária, eu sei que
farei parte dos 13% da população brasileira que têm
ensino superior. E, claro, sendo eu um projeto malogrado de um ensino
deficiente, tenho consciência do quanto essa vitória sinaliza
minha força de vontade. Sei que meu plano megalomaníaco
de ascender a educação brasileira a um nível de
país desenvolvido é um projeto que não poderei
arcar sozinha. Enfrentarei a desvalorização de uma profissão,
um salário irrisório e um cansaço diário
pré e pós aula.
Porém, se de trinta alunos, um sair da sala de aula com vontade
de continuar em meio aos livros, com consciência política,
econômica e ambiental, com discernimento mais amplo da realidade;
eu já terei sobre o meu travesseiro uma mente tranqüila
de quem não está deixando a vida passar em branco. Cansei
de culpar o governo. Se é a minha parcela que posso dar, ela
será entregue de forma integral.”
Não conheço a Georgia. Não sei quantos anos ela
tem, qual a cor de sua pele, se é gorda ou magra, loira ou morena.
Só consigo imaginá-la a partir do texto que me emocionou.
Qual é a fórmula para produzir mais Geórgias?
Não parece que é sua origem. Não é a educação.
Não é a posição social. Não são
as oportunidades. Parece que é um fogo interior, a vontade de
aprender.
Mas antes de tudo vem algo mais importante. Geórgia não
se conformou. Tomou uma decisão, enfrentou os riscos, sentou
para ler e descobriu uma paixão. Georgia se deu uma chance. Mais
que isso: mostrou-se generosa. Colocou como objetivo estimular outras
Geórgias.
Os urubus vão achá-la sonhadora, iludida, inocente.
Para mim, Georgia é necessária.
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