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Seções » Colunas

Sociedade
RIR OU CHORAR, QUE DIFERENÇA HÁ?
Lúcio A. Silva
Oficial do Ministério Público
do Estado de Minas Gerais
e-mail: lucioasilva@yahoo.com.br
Publicado em 28/08/2008


Existem diferenças entre o riso e o choro? Tecnicamente são semelhantes. Apenas semelhantes, mas não iguais! Quando se ri ou se chora, o corpo sacoleja, as emoções afloram e sempre há lágrimas. Param aí as coincidências.

A diferença entre estas manifestações da alma é dada pelos sentimentos que os embalam. Ninguém será capaz de chorar de tanto rir, assim como não se morre de saúde. O fato puro e simples de se verter lágrimas não configura o choro. Para ser classificado como tal, será preciso a motivação dada pela sensação de dor, de perda e de sofrimento. Não há choro sem tristeza, assim como não há alegria sem riso.

Um atleta olímpico, por exemplo, que se desmancha em lágrimas entre indisfarçáveis sorrisos ao ouvir o hino nacional de sua pátria no mais alto degrau do “podium”, por certo não estará chorando.

Talvez ninguém tenha pensado nisso antes, daí a ausência de uma palavra que defina aquele estado de espírito, onde se fazem presentes e misturados as características dos dois extremos da alma humana: o sofrimento e o prazer.

Assim, por absoluta falta de uma definição melhor, vou chamar aquela confusão sentimental de felicidade em estado líquido. Só os heróis provam esses momentos sublimes.

Naquela hora não há sofrimento; todas as privações terão valido a pena; toda as dores transformaram-se em indescritíveis prazeres; toda fraqueza, convertida em heroísmo; tudo é alegria e as naturezas antagônicas de riso e choro distanciam-se ao máximo a ponto de se tornarem vizinhas pelo oposto.

Alegria e tristeza, choro e riso, são tão diferentes entre si quanto o são a imagem refletida no espelho e o objeto real que lhe deu causa; quanto o céu e o mar, que ilusoriamente se encontram no infinito azul de um abraço cósmico; quanto o amor e ódio que se degladiam na arena feroz da alma humana. Parecem a mesma coisa, mas não o são.

Mas o choro verdadeiro também existe. Nasce da dor pungente de uma desesperança; de uma derrota inesperada; da vergonha de ter decepcionado a expectativa dos compatriotas.

Para aqueles que lutaram no limite de suas forças sem conseguir feitos memoráveis, o respeito e a admiração do público valerá tanto quanto a medalha que não veio. São estes os heróis que eternizam o espírito olímpico.

Suas lágrimas são frutos do verdadeiro choro: dolorido, solitário e triste. Por ser autêntico comovem mais que a explosão de alegria das vitórias.
Há também os indiferentes e os arrogantes. Estes abandonam suas medalhas no “podium”, desprezando-as em protestos patéticos e antiesportivos que humilham seus adversários e maculam a glória do Olimpo, onde nunca deveriam ter pelejado.

Os indiferentes, são ainda piores: não choram, não riem. Parecem zumbis anestesiados pela vaidade inútil. Estes, apenas contabilizam prejuízos. Prejuízos causados à dignidade de uma torcida apaixonada; prejuízos no orgulho de um povo que os nomeiam como heróis esperando que mostrem a garra de uma nação e sempre se decepcionam.

Mesmo podendo, os indiferentes nunca ganham medalha porque ignoram a expectativa da torcida e não lutam para consegui-la. Prejuízo para suas próprias carreiras, pois que, constantemente derrotados, desvalorizam-se no mercenário mercado profissional.

A eles, o desprezo e o escárnio público será o prêmio.