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Seções » Colunas

Psiquiatria
A dama das rosas vermelhas
Dr. Daniel Santos Hercos,
membro titular da Associação Brasileira de Psiquiatria
Home Page: www.danielhercos.com.br
e-mail: dasahe@terra.com.br
Publicado em 10/04/07

O sonho dispensa palavras concretas, pode ser abstraído da fantasia pura aquela que ilude o tempo e a morte. Foge de nossa transitoriedade e na existência estabelece um elo entre a vida e a poesia, capaz de oferecer o intimo e o sensível. Visionário e apaixonante afaga nossa alma. Falo dos sonhos lindos de um passado remoto. Lembro de minha avó, aquela época com seus quase oitenta anos; envolta em ternura, beleza e graça, ao buscar o encanto e fascínio pela vida. Diziam que nascera no ano de 1906, logo na chegada de seus pais vindos do Líbano para o Brasil. Primogênita, data de aniversario não tinha. Sabia apenas escrever o nome, mas os sobrenomes variavam, eram pelo menos três assinaturas diferentes, aprendeu para votar. Viúva, irmã e mãe de doutores, era uma mulher de poucas palavras. Tinha hábitos incomuns, morava numa importante rua comercial de Uberaba, mantinha a porta aberta dia e noite para receber quem desse a honra da visita. Não distinguia as pessoas, pois seu mundo desconhecia o perigo. Uma dama que escrevia sem letras as mais belas poesias, cabeça baixa, olhos pequeninhos e fixos. Sua caneta tinteiro, uma agulha de crochê, a cor quase sempre um vermelho intenso em fio muito delicado. Acho que já não enxergava, mas os anos ensinaram movimentos treinados. Sempre fazia rosas vermelhas, prendia umas às outras, cada ponto um verso. De sua fantasia construía poemas sobre colchas de metros.

Provedora de conforto d'alma, do amor incondicional, da sabedoria do silêncio. “Uma verdadeira artista que fazia rosas de sonhos para colorir a vida do mais alegre vermelho, como um grande ateliê de verso e prosa”.

Mãe exemplar, como avó foi sublime, opinava pouco e assertiva. Morreu numa noite de festa da família. Encaminhou todos como se quisesse obstinada estar em paz, já cansada das rosas da vida,sozinha na casa onde vivera por quase meio século. Decretou seu enterro em dia de feriado, como se pudesse fazer mais uma gentileza à todos que quisessem se aproximar pela última vez.