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Psicologia

VAI SER BOM...NÃO FOI?
Lisete Resende, Psicóloga Clínica, Vice-presidente do Forum dos Articulistas de Uberaba, Assessora de Imprensa da Casa do Folclore, e Diretora de Projetos e Marketing da Fundação Cultural de Uberaba.
e-mail: liseteresende@hotmail.com
Publicado em 16/11/2006


A pressa já foi considerada, durante um longo período de tempo, uma inimiga do homem. Os sábios diziam que era preciso cultivar a paciência e a bíblia louvava os calmos e pacíficos. Mas em nome do progresso, eis que a impaciência volta a atormentar as pessoas, tornando-as cada vez mais aflitas, exigentes e ansiosas. De repente ninguém mais tem nem tempo, nem tolerância. A pressa está encurtando as palavras, substituindo verbos importantes, fazendo modificações substanciais na qualidade da convivência familiar e social. Os dias já começam atrasados e urgentes e não terminam. Invadem e ocupam as mentes pela noite afora com os eu tenho, eu devo, eu preciso fazer isso amanhã.

Fazer várias coisas ao mesmo tempo, comer, andar e falar à velocidade máxima, sentir-se culpado quando relaxa, viver cansado ou agitado, se aborrecer depressa quando outras pessoas estão falando, são algumas das pequenas conseqüências dessa era digital, onde tudo é para ontem e bem feito. A aflição é tanta que muitos estão se tornando maratonistas em tempo integral. Você pergunta como estão passando e eles respondem: "correndo!..." Mesmo porque hoje quase ninguém responde a um cumprimento já que, na verdade quem quer saber como você está....? E se alguém se aventura a responder é um homem morto. Além de virar assunto do dia, passa a ser evitado. Fique esperto quando ouvir um "tudo bem com você?" lembre-se que não foi à toa que lhe ensinaram fazer positivo com o dedão.

Quanto mais a ciência se esforça para alongar a vida mais as pessoas se esforçam para ocupá-la, numa ânsia maluca de gastar, esgotar o tempo. Em decorrência dessa disritmia um imediatismo crescente e preocupante vem atropelando amadurecimentos muito necessários. Quantos jovens, hoje, não conseguem aguardar o tempo certo para experimentarem o gostinho da vida adulta e quantos pais estão também sem tempo para segurarem o "não, ainda não", eles também com pressa de se verem pais de filhos mais independentes. Com isso são muitas as experiências importantes perdidas, impossibilitadas de serem vividas emocionalmente.

Talvez a evolução tecnológica tenha estimulado a falta de tolerância e possa ser um pouco responsabilizada pelo desejo de urgência. Com tanta rapidez e facilidades oferecidas, aos poucos a incapacidade de lidar com a expectativa e a impaciência diante de um obstáculo, foram sendo incorporados ao comportamento do homem moderno. Telefone ocupado, por exemplo. Poucos são os que tem a paciência de controlar o impulso de quebrar o pobre do aparelho. Alguém que toma sua vaga no estacionamento, fila que não anda, a Internet que não acessa, três minutos de propaganda, o sinal que não abre..., são algumas das pequenas contrariedades com poder de detonar irritações, jogar litros de adrenalina do sangue e arrasar com o dia de alguém.

Nem toda pressa é maligna já que, cronometrando cada minuto é que muitos atletas ganham suas medalhas e muitas médicos salvam vidas. Para quem não é nem uma coisa nem outra e, perder cinco minutos faz diferença apenas na importância que dá a si mesmo, a pressa pode estar, na verdade, servindo de válvula de escape a muitas frustrações. Parecem correr para longe daquela vida que não gostam, sem felicidade, sem sentido e voltar a elas sempre muito cansados ou irritados para pensar. É como diziam: "ai não posso parar, se eu paro eu penso se eu penso eu choro". E assim... corre a humanidade.