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Psicologia

NEM TÃO PELÉ NEM TÃO ZÉMANÉ...
Lisete Resende, Psicóloga Clínica, Vice-presidente do Forum dos Articulistas de Uberaba, Assessora de Imprensa da Casa do Folclore, e Diretora de Projetos e Marketing da Fundação Cultural de Uberaba.
e-mail: liseteresende@hotmail.com
Publicado em 12/12/2006

O desejo de ser importante, de ser considerado "o bom", de conseguir não apenas vencer na vida com um talento, mas ser medalha de ouro e fazer diferença no mundo é um dos estímulos que mais alimenta os esforços e investimentos humanos. Na infância todos são bonitinhos e talentosos, na juventude todos são corajosos e cheios de idéias grandiosas e, crescer com essa fé em si mesmo, com esse desejo de mudar o mundo é vital para se conseguir abrir a porta da idade adulta fechando-a para aquela vida boa, cheia apenas de tão boas intenções.

Demora muito chegar a maturidade e, com ela a compreensão de que, se o seu talento "deu para o gasto" já está bom demais, já se chegou "lá". Nem todo mundo vai ser um Bill Gates ou um Guga ou, vai se casar com o filho do príncipe e, aceitar o fato de que se é um cidadão do mundo, uma pessoa comum, nem sempre é facilmente engolível. Tem gente que não se conforma, que se acha injustiçado pelo destino... ainda que ninguém concorde com isso.

Pessoas que mantém suas expectativas vivas ignorando suas reais possibilidades, muitas vezes não apenas se tornam infelizes, mas acabam também aterrorizando a vida de quem está ao lado. Alguns foram fazer um teste no Cruzeiro e até hoje se acham os melhores jogadores do mundo, outro já trabalhou no Estadão, outra já paquerou com o Aécio, outro já se sentou com o Lula no avião e pensam que, por isso, podem entrar na festa sem pagar... Claro que é tudo muito legal, mas na vida real, esses são apenas mais um pedestre esperando o sinal da vida para poder continuar o caminho.

Ninguém, em sã consciência sonha com o futuro nos termos "quando eu crescer vou ser um zémané" mas, também não sonham em ser menos que o Pelé. Desenham uma vida sem o meio termo, sem o "caminho do meio", como dizia Buda. E assim é que muitos acabam chorando de "barriga cheia", sofrendo por não serem os primeiros lugares, o dono da empresa, a mulher mais bonita do Brasil. E não vivem, sobrevivem aguardando que uma força misteriosa qualquer venham reabilitá-los, colocá-los no trono.

Manter expectativas é sempre uma mão com dupla possibilidade. Por um lado mantém acesa a chama da energia, alimenta os sonhos, dá forças, reabastece mas, por outro lado pode roubar, para sempre uma alternativa de ajustamento e de adaptação. A pessoa sempre se mantém numa situação provisória, com a sensação de que a qualquer momento tudo pode parar ali e começar a vida "real". E assim, há o risco de passar a vida esperando, esperando, esperando um trem...de mineiro mesmo.

A grande culpa de se frustrar com um sonho, de encarar o confronto entre o desejo e o que foi feito, quase sempre está no tamanho dessa expectativa. É bom ser otimista, querer ser um prêmio Nobel, mas, em prol de sua própria saúde, é também importante saber que um dia você pode não passar num primeiro vestibular, pode acabar trabalhando para aquele colega supermal aluno que se tornou vereador, comprar só com um monte de prestações, se casar com o Zé, andar de ônibus e perder o Zé para aquela melhor amiga. Parece praga, é verdade, mas acredite, são apenas riscos, possibilidades. E a vida está cheia delas...