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Psicologia
COMO SE NÃO HOUVESSE AMANHÃ...
Lisete Resende, Psicóloga Clínica, Vice-presidente
do Forum dos Articulistas de Uberaba, Assessora de Imprensa da
Casa do Folclore, e Diretora de Projetos e Marketing da Fundação
Cultural de Uberaba.
e-mail: liseteresende@hotmail.com
Publicado em 04/10/2006
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O ritmo de vida atual movido a controle remoto, acelerada, em uma cultura
de velocidade de cliques, tem ampliado a exigência pelo prazer.
É a cultura da ligeireza, uma fase de leviandade em que os valores
valem pouco e a felicidade é efêmera. Qualquer tipo de
desconforto percebido numa situação já é
motivo para virar aquela página e pensar "se estou infeliz
nessa vou para outra". E assim justificado, sair em busca de outras
paragens até que se sinta melhor, sem dar um tempo para saber
se a infelicidade é infelicidade mesmo ou se é uma falsa
interpretação, ou, quem sabe apenas parte de uma aprendizagem
importante para estágios mais estáveis no futuro.
Com a crença de que tudo que é bom dura pouco, a aposta
é de que tudo que dura muito só pode ser muito ruim. Um
tempo em que a palavra "ainda" é símbolo do
comportamento moderno e vem, quase sempre, com a conotação
de estagnação, um sinal de se estar parado no tempo, uma
idéia de bolor. Já escutou os "você ainda trabalha
lá?" ou "ainda vai naquele cabeleireiro, ainda está
casado, ainda são amigos..." Comentários que até
podem estar carregados de uma certa invejazinha mas que se traduzem
como "você não deve ter mais prazer nenhum" e
fazer alguém se sentir uma múmia, um fóssil, alguém
que não se renova.
Os "aproveita hoje porque a vida é uma só",
vende cada vez mais prazeres momentâneos, que saciam desejos urgentes
considerados, quem sabe, antídotos contra a infelicidade. Nada
de fazer amigos sinceros, amigos que duram, por exemplo, o importante
é fazer rodas em que hajam especialistas em contar piadas, rodas
que sejam engraçadas, e, se não forem é porque
a bebida foi pouca, ou porque alguém tentou puxar um assunto
chato... sobre a vida, ou então havia um que ainda....
A idéia de que o tempo está cada vez mais curto, de que
o dinheiro está curto, autoriza as pessoas nesse caminho de enganos,
de buscar ser feliz sem saber como, ou de buscar a felicidade em momentos,
em flashes, ou seja, em gotas de prazer as quais, se você não
curtiu.. "foi no vento e perdeu o assento" ..tchau. Até
que de tchau em tchau, não se saiba mais com o quê ser
feliz.
Quem sabe a responsável por tanta urgência aflitiva seja
a falta de opções, a ausência de possibilidade de
escolha em que a maioria das pessoas se encontram. Sonham ser felizes
em outras profissões, que não rendem, em mandar o chato
do marido para passear, que rende, em atividades ou convivências
mais genuínas, que não convencem. Cooptados para uma vida
com retornos garantidos, mais segura, sem poder para acessar as coisas
que gosta, e sacrificando as que se tem a impressão que lhe satisfariam,
vão ter que ter felicidade na marra, seja lá disfarçada
de alegria, de prazer ou de qualquer bom momento.
Estar ancorado nessa categoria de felicidade cujo conteúdo seja
prazer a qualquer preço, nem sempre evita certa sensação
de fracasso ou sentimentos de culpa por não ter ambições
mais estáveis. A vida escorregando entre os ponteiros, cobrando
algum tipo de satisfação, em meio ao corre corre, num
tô que tô, tá que tá, podem sim ter gerado
algum prazer, mas... você ainda se lembra qual?
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