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Psicologia
POR ISSO EU CORRO DEMAIS...
Lisete Resende, Psicóloga Clínica, Vice-presidente
do Forum dos Articulistas de Uberaba, Assessora de Imprensa da Casa
do Folclore, e Diretora de Projetos e Marketing da Fundação
Cultural de Uberaba.
e-mail: liseteresende@hotmail.com
Publicado em 13/12/2006 |
Ninguém sabe quem foi o pai da idéia de que, para merecer
o carimbo de "você é gente", é preciso
estar sempre ocupado, viver correndo, não ter tempo para nada.
Alguém inventou essa moda, vendeu para a mídia e hoje,
aquele que vive "atolado" no trabalho, dedicado de corpo e
mente, merece até o honroso título de "...Você
é Gente que Faz". Envolvidos num frenético movimento,
lotando suas agendas, enredando-se em vários compromissos, é
assim que o homem anda conseguindo obter a sensação de
se sentir vivo, inserido no mundo, funcionando.
O incrível é a quantidade dos que criam gastos financeiros
acima das suas reais possibilidades, lotam sua vida de jornadas duplas,
de prestações, de nervosismos, para se manterem ocupados,
para poderem reclamar que estão cansados ou para viverem a ilusão
de que são indispensáveis no mundo. Constróem um
padrão de vida que custa... a própria vida! Dizem que
em nome da família, mas essa mesma família trocaria, por
uma mesada menor, pais ou parceiros mais presentes.
Uma conseqüência danosa que acompanha o aceleramento de uma
pessoa, é o fato de "anestesiar" algumas sensações
e percepções importantes. As mesmas resoluções
urgentes de ontem, do mês passado ou do mês que vem, não
deixam alguém perceber que vem correndo há muito tempo,
que o que se acelerou foi a forma de viver e de pensar. Vão se
afastando de si mesmos, nomeando como stress uma insatisfação
que não pode ser vista, como distúrbio nervoso um vida
sem afeto, sem alegria. Isso quando não pensam estar precisando
de calmantes quando precisariam, na verdade, repensar, buscar um pouco
mais de satisfação para seus dias.
Essa idéia de que ser ocupado é ser feliz, tanto forçou
a entrada na cultura atual que interfere negativamente nas pessoas que
se aposentam, que não se sentem mais "funcionando",
inseridos no mundo. Justo no seu melhor momento, na hora de usar a criatividade,
de desacelerar, lá vem a depressão ou o tédio ocupar
o lugar do prazer.
Viver ocupado serve como desculpa para alguns fugirem de qualquer tipo
de relacionamento onde esteja implícito o verbo "envolver".
Entendem de ser humano anatomicamente, teoricamente. Ai daquele que
aparece com algum conteúdo pessoal, com algum comentário
sobre o que sentiu, ou qualquer coisa do tipo, diga-se "humano";
um ar de incredulidade aparece, como se o sentir humano fosse algo ultrapassado,
assustador, pré histórico.
Algumas dessas pessoas são aquelas que ligam cedo na sua casa
e perguntam se você estava dormindo ainda, e completam com "que
vida boa hein?!", ou que lhe encontram de manhã e fazem
questão de dizer "que cara de sono..."que significam
basicamente o quê? O que esse comentário quer dizer? Parecem
fiscais do grupo "Meu Nome é Trabalho" tentando infringir,
quem sabe, uma espécie de culpa conseguindo, no máximo,
serem só chatos. Muito chatos.
Se você é alguém que gasta um tempo em se ocupar
consigo mesmo, tem um sério compromisso com seu lazer e sua qualidade
de vida, saiba que você também é "gente que
faz". E faz melhor! Mas não fique se exibindo, matando os
extra-ocupados de inveja. Minta, invente alguns compromissos, reclame
também... Olha que inveja mata...
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