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Seções » Colunas

Psicologia

SE CONSELHO FOSSE BOM NINGUÉM DAVA. USAVA.
Lisete Resende, Psicóloga Clínica, Vice-presidente do Forum dos Articulistas de Uberaba, Assessora de Imprensa da Casa do Folclore, e Diretora de Projetos e Marketing da Fundação Cultural de Uberaba.
e-mail: liseteresende@hotmail.com
Publicado em 15/05/2008

Se conselho fosse bom ninguém dava... usava! Você já viu alguém dar de graça um carro, dinheiro, ou qualquer coisa que valorize muito? Difícil não é?!! Mas dar conselhos, todo mundo quer dar. Conselho é o tipo da coisa que, de tão inútil, nunca conseguiu surtir efeito em ninguém. Pensa bem, o cidadão que se julga no direito de aconselhar, que acha que sabe as respostas da vida deve ter, no mínimo, passado pela experiência, ou seja, nem ele ouviu os conselhos alheios.

Conselho só serve para duas coisas: primeiro ficar ocupando a cabeça das pessoas em forma de culpa: “bem que a minha mãe falou”, ou, “porque eu não ouvi o fulano?”; E depois, para fazer bem àquele que dá o conselho que fica se sentindo roteirista de telenovela, assistindo as pessoas executando suas idéias. Usar as pessoas como personagens concretiza, simbolicamente, a execução de seus pensamentos e desejos. Eu, se fosse você, pensava nisso. Vê? Eis aí um exemplo concreto de que conselho não serve para nada.

Os filhos, coitados, são vítimas típicos dessa fraude. O pai teimou com o próprio pai e foi seguir o curso que quis, largou o emprego seguro e casou-se cedo, mas hoje, nem imagina o filho fazendo o mesmo. Volta e meia faz apologias sobre a economia, a liberdade, e dispara aqueles conselhos bem conhecidos: “aproveite a vida antes do casamento, porque depois...”. Depois o quê?... Mesmo argumentando que é para o próprio bem deles, não sabem que estão, na verdade, tentando assistir no filho, um outro final para suas próprias vidas, tentando ver a si mesmos dentro de um outro desfecho, um outro roteiro.

Dar conselhos tem duas funções principais. A primeira é satisfazer a curiosidade de alguém que tenta descobrir qual seria o final, caso fizessem aquilo que aconselham outros a fazer. Esses que, às vezes, não têm a mínima coragem nem para dar uma opinião, nem para refazer as contas num restaurante, mas engrossam as filas dos “vai que é mole”. Dão corda para que outros façam as experiências, que sejam cobaias das suas idéias; algo assim como jogar uma pedra numa cerca elétrica para ver o tamanho do choque que evitaram sentir E adivinhe quem faz o papel de pedra no “roteiro” do seu “conselheiro”?

A segunda função é a de fazer alguém sentir-se um “sabe tudo”, de se alimentar da idéia de que ninguém sabe as respostas, de que onde existir dúvidas ele vai poder exercer sua onipotência, vai ensinar. Às vezes nem precisa existir um problema ou uma dúvida, às vezes foi só uma pausa na respiração e, quando menos se espera, lá vai o conselho saindo pela boca afora. Alguém reclama uma dor de cabeça e lá vem o “toma uma aspirina...”. E nem se importa em saber que quem reclamou tem capacidade para saber que já inventaram remédio para isso...

Nem todo conselho é tão malvado assim desde que algumas regras sejam respeitadas. A primeira é esperar que o outro pergunte. Quem sabe a pessoa quer só desabafar, pensar em voz alta... A outra é ouvir quais são as alternativas que o outro consegue pensar, que idéias consegue ter sobre o suposto problema ou solução. Ele deve saber mais do que você sobre a vida dele, concorda? E, por último, oferecer, caso solicitado, a sua visão, a sua opinião sobre o tema, o que vê e pensa. Eu, se fosse você, pensava nisso. Ôps!...