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Psicologia
AMORAL... DA HISTÓRIA
Lisete Resende, Psicóloga Clínica, Vice-presidente
do Forum dos Articulistas de Uberaba, Assessora de Imprensa da Casa
do Folclore, e Diretora de Projetos e Marketing da Fundação
Cultural de Uberaba.
e-mail: liseteresende@hotmail.com
Publicado em 27/02/2007 |
Com a evolução das espécies uma mudança
significativa no homem o diferenciou definitivamente dos outros animais.
Não somente porque anda com as duas patas traseiras e não
tem plumas, como ironizou Aristóteles. A grande mudança
ocorreu no instinto animal, ou seja, para a raça humana, diferentemente
dos outros animais, o instinto ficou submetido ao poder de decisão
do homem.
Enquanto nos animais há sempre uma mesma resposta para um mesmo
estímulo, o raciocínio humano permite múltiplas
opções. Quando o homem está com raiva, por exemplo,
nem sempre precisa mostrar os dentes ou investir no seu adversário.
Pode arquitetar uma vingança, planejar um ataque à integridade
do rival, ou apenas chorar de raiva. Essa capacidade para adiar ou modificar
uma resposta, foi a responsável por todas as outras formas de
aprendizagem.
Foram necessários muitos séculos para se conseguir construir
o que hoje chamamos sociedade. Isso só foi possível graças
à aquisição de sentimentos como a piedade, a solidariedade,
o afeto, à capacidade de se colocar no lugar do outro já
que, com domínio da inteligência, não era mais preciso
viver em bandos para fugir de predadores. Outros sentimentos vieram
juntos, como a inveja, a maldade e a imoralidade, dificultando a evolução
e foram rebatidos com punições como o pecado, o castigo
e o fogo do inferno.
Diante das censuras e do medo que elas provocam, acabou-se formando
a consciência "pesada" que passou a representar o tribunal
de contas de cada um, o censor. Esse juiz, entretanto, nunca aparecia
quando o que se devia julgar eram pensamentos ou comportamentos ditos
imorais.
A moral, considerada uma conquista evolucionária, parecia impedir
a alegria dos homens e interferir, sem dó, na sua obtenção
de prazer. Como um "órgão", por falta de uso,
pode se reduzir a meros vestígios, assim foi com o censor da
imoralidade. Pifou! Atrofiou!
Milhares de anos após a criação da civilização
humana e tantos progressos eis que se assiste ao fenômeno do retorno
ao primitivismo. Disfarçados agora pela inteligência e
defendidos pela idéia de "seja você mesmo" a
força atávica dos ancestrais de Java, está abalando,
sendo resgatada para uso geral. Mas com classe. Para atrair uma "fêmea",
por exemplo, não usam mais pauladas, puxões de cabelo
ou investidas abruptas. Podem ganhar na mentira, numa boa "cantada"
ou com um bom cartão de crédito.
Assim é que, o "Ser moral" foi substituído por
"Ter moral" no sentido de ter importância, influência,
acesso. E, com essa sofisticada arma, vence quem tem poder e, (porque
não?...), muita moral. Quanto mais "cheios de moral"
menores seus comandos sobre suas energias instintuais. Pra quê
gastar tempo com possibilidades de se desenvolver, emocionalmente, como
raça? Ganha-se alguma moral com isso?
Diante de um desejo e da impossibilidade de se pensar sobre ele ou,
sem a repressão, o homem pode se tornar uma ameaça com
maiores dimensões. E, se a teoria de Darwim se confirma nesse
século, ou seja, reproduzindo aqueles que repetem as mesmas respostas
assim como os animais ou as plantas, o homem de Cro-Magnon poderá
ser encarada como uma previsão para o homem do futuro. Mais sofisticados,
claro, mas ...de volta ao começo. A esperança do homem
reside nos resquícios de moral que ainda se exige, mesmo que
seja nos outros. Não fosse um pouco de moralidade existente,
não se inventaria o "fazer escondido". E, quando não
tem ninguém vendo, pra que se preocupar com os castigos, com
o fogo do inferno...
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