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Psicologia

AS VEZES PERDER FAZ PARTE
Lisete Resende, Psicóloga Clínica, Vice-presidente do Forum dos Articulistas de Uberaba, Assessora de Imprensa da Casa do Folclore, e Diretora de Projetos e Marketing da Fundação Cultural de Uberaba.
e-mail: liseteresende@hotmail.com
Publicado em 10/09/2008

Se todas impressões sobre a formação humana estão gravadas no inconsciente, a vitória será a experiência mais remota do homem já que, lá na disputa pelo óvulo, foi um campeão. O homem já nasce vencedor e, durante todo o seu trajeto pelo mundo, sua vida será marcada por outras lutas e, em todas elas, a certeza de vencer será seu elemento motivador. Quem inventou as loterias apostou nesse arcaico sentimento e ganha dinheiro estimulando essa sensação. O acessório chamado – aprender a perder - não veio instalado no homem que são então, obrigados a comprá-lo a preços altíssimos.

Se a primeira vitória dá direito à vida, a primeira perda ensina que por mais terrível que sejam os sofrimentos decorrentes delas, um sentimento novo, uma espécie de aprendizagem especial a acompanha. Assim, quem continua com muito medo estará sempre fugindo de situações novas e de desafios, sempre esperneando diante de tudo que lhe desagrada e tentando controlar as pessoas à sua volta. As perdas são sempre muito doloridas mas fugir por medo delas ou negar vivê-las pode ser, a longo prazo, mais funesto.

Ninguém é feliz sentindo-se preterido, rejeitado, ou um perdedor. Quem não teve um dia vontade de morder no pai quando ele foi contra você: “dá o brinquedo para sua irmã”, ou no namorado que, depois de lhe deixar em prantos com o término, apareceu radiante ao lado daquela horrorosa? E a promoção daquele colega que só tem diploma de puxa-saco, seu nome que não saiu na lista de aprovados, aquele “honroso” segundo lugar... E foi assim, em pequenas doses, que o homem pode conhecer o que é perder, e desenvolveu um medo enorme de passar por ele alguma outra vez na vida.

A derrota, a perda, parecem simbolizar a morte, encontrando reforço na própria teoria de Darwin onde perder pode significa perder a vida. Ninguém quer perder nada mas, numa escala de prioridade, a sobrevivência será sempre a primeira defendida. Por sobrevivência cada pessoa no mundo entende à sua própria maneira o que faz com que se possa eleger o trabalho, amor, poder, orgulho e talento, dentre outros, como vitais.

Perder esses elementos que para uns pode parecer tão sem sentido, para outros pode simbolizar a morte.
Quantas esposas elegem seus maridos como a razão de suas vidas e suportam o desprezo, a rejeição, podendo perder a alegria, ter uma vida sem afeto, sem esperança, simplesmente porque localizam naquela pessoa seu elemento de sobrevivência, e supõem provir desse relacionamento, seu elemento vital. É compreensível! Se bem que nos casos em que essa perda se concretiza, a pessoa, conforme imaginava, não morre e até se descobre cantando: “sem você eu passo bem demais...”.

O fato do homem buscar sempre vencer, ganhar, não o faz, entretanto, valorizar um outro vencedor. Inúmeras vezes é surpreendido torcendo para quem está perdendo, ou para aquele time mais fraco, chegando a identificar aquele mais forte como um ser cruel que está derrotando aquele outro “coitadinho”. Parece que o sentimento de perda é tão terrível que não se consegue ao menos assisti-lo sem se sentir ameaçado. Na esperança que pudesse ser excluído, não se identificam com as vitórias, torcem contra as perdas. E ficam assim, torcendo para o jacaré não perder para o Tarzan, o Brasil não perder para a China...