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Psicologia

Coisa chata é mau humor
Lisete Resende, Psicóloga Clínica, Vice-presidente do Forum dos Articulistas de Uberaba, Assessora de Imprensa da Casa do Folclore, e Diretora de Projetos e Marketing da Fundação Cultural de Uberaba.
e-mail: liseteresende@hotmail.com
Publicado em 08/07/2008

Manter-se bem humorado todos os dias, independente do que está rolado no mundo, convenhamos, nem sempre é possível. São tantas “coisinhas miúdas, roendo, comendo”, como diz a música do Gonzaguinha, que às vezes é complicado até mesmo manter aquele sorriso social, aquele típica “cara de paisagem” no rosto. E acordar com a “macaca” e ter que arrasta-la o dia inteiro consigo, é algo sempre tenebroso. As pessoas parecem mais feias e chatas, o dia não termina, o transito fica mais lentos, e parece que todos conspiram para contrariá-lo já que, naquele dia, absolutamente nada dá certo.

Agora, se existe algo pior do que acordar de mau humor e passar o dia enxergando em preto e branco, pode apostar que é ter que suportar a “macaca”, o mau humor alheio. Aquele que, alem de não lhe dizer o mínimo respeito, e sobre o qual pouco ou nada se pode fazer, esboça um nítido esforço para incomodar, para descolorir seu dia.

Parece que existe uma crença de que o mau humor seja esgotável e que é preciso usá-lo com o maior número de pessoas possíveis, para que desapareça. Ou então que ele é móvel e seja necessário empurrá-lo para o outro para se ver livre. Ou, o que é pior, que quando alguém está de mau humor fica proibido aos outros manifestarem qualquer tipo de sinal de alegria.

Já houve um tempo em que era considerado de péssimo tom alguém exibir um humor que fosse contrario à cordialidade e à boa educação. Se o sujeito havia se levantado da cama e deixado a “avó atrás do toco“, o problema era inteiramente seu. Não tinha essa de compartilhar mau humor não. Era cada um com o seu e pronto! Como não era permitido esboçar mau humor, raramente se sabia o que fazer com o mau humor dos outros e os temperamentais eram meio discriminados, não tinham tanto espaço como nos dias atuais.

Atualmente é impressionante como as pessoas demonstram mau humor com a maior tranqüilidade. Parece até haver uma falsa associação com a idéia de poder, de superioridade, ou algo como um risco de serem passados para trás caso sorriam ou sejam cordiais. Acordam como se fossem o Incrível Hulk, já verdes, andam pelo dia como se envolvidos por arame farpado exibindo a placa “Não se aproxime. Perigo!”. Quem ousa chegar mais perto já leva logo uma saraivada de desaforos que é para ficar bem claro que o fulano está fechado para balanço.

Quem autorizou o uso do mau humor e sua distribuição gratuita a qualquer um a qualquer hora, não se sabe, mas de repente eis que virou moda ser um “afasta pessoas”. Não dá para entender como esses clones do “tolerância zero” nem percebem o quão chatérrimos são seus ataques, o quanto deixam todo mundo rezando errado por eles. Ficam ali emburrados, evidenciando sua incapacidade para lidar com problemas ou, quem sabe, sua raiva por estarem vivos.

Enfim, ter acessos de mau humor é hoje tão normal como ter uma gripe, ou uma febre e, como todo bom doente, os mau humorados deveriam ser mantidos em isolamento durante o surto, presos em casa, consigo mesmos. Mas como todo chato quando está tossindo, ao invés de ir ao médico vai ao cinema, os mau humorados seguem a mesma linha e vão para a vida tentar azedar o dia de alguém.

Não tem receita pronta para curar um mau humor daqueles bem imprevisto.O remédio é tentar entender e superar, às vezes cantando, às vezes xingando mesmo. Agora, com o mau humor alheio, nem folhinha de arruda resolve. Se alguém rosnar pra você use o princípio do antídoto e faça uma carinha boa em troca. Pode não resolver para ele, mas que você vai se prevenir de contaminação, pode apostar tudo nisso!.