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Palavras de Fé
LONGE DA JUSTIÇA
Dom Aloísio Roque Oppermann scj - Arcebispo de Uberaba, MG
e-mail: domroqueopp@terra.com.br
Publicado em 30/10/07

Para manter o equilíbrio emocional, todos devemos estar ligados às raízes de nossa infância. Elas participam, de maneira definitiva, na formação de nossa personalidade. Entre outros, esse foi um dos motivos que me levou ao Rio Grande do Sul, neste mês de outubro, para participar da missa de beatificação dos mártires Pe. Manoel Gonzáles e do seu coroinha Adílio Daronch, um jovem de 16 anos. Desde a minha infância sempre ouvi falar desse bárbaro assassinato, cuja motivação fundamental foi realmente o ódio (de fundo positivista) à fé católica. O local desse martírio foi uma vila, outrora chamada Feijão Miúdo. Num admirável consenso entre católicos e luteranos, e para resgatar a honra dos corajosos mártires, aquela próspera localidade foi rebatizada para "Padre Gonzáles".

Convém lembrar que nos idos de 1924 ainda estava acesa a saga revolucionária entre maragatos e chimangos (inconsciente e inocentemente transferida para a torcida do Internacional e do Grêmio). Ainda na década de 1940, nas regiões do Alto Uruguai, estavam bem visíveis os "sobrantes" dessa guerra civil. É a punição divina para Caim: "Andarás errante e fugitivo sobre a terra" (Gen 4,12). Como guri cheguei a conhecer vários cidadãos estranhos, esquivos e de maus bofes. Nunca os vi numa missa, ou numa festa religiosa. Sempre assumiam atitudes de "não mexam comigo". Portavam na cintura um punhal reluzente, e é claro, não queriam amigos. Quem eram eles? Foragidos da justiça, diríamos hoje. E os assassinos do Padre e do seu ajudante, só podem ser entendidos dentro desse quadro. A graça do Espírito Divino fez os mártires serem firmes na fé diante dos maus tratos, e da morte violenta. Seu ato heróico está na boca do povo há mais de 80 anos. Os assassinos principais nunca foram alcançados pelas mãos da justiça. Um dos sicários - permitam-me essa digressão - foi enterrado sob os ritos fúnebres proferidos pela minha mãe. Ela, que já havia enterrado mais de 300 adultos, como líder da comunidade, foi encarregada pelo padre da Paróquia, a realizar o enterro religioso. Houve lances tétricos, com nuances de horror. Por ser dia de forte chuva, o caixão teve que ser segurado com fortes varas, debaixo da água. Depois de ter aflorado inúmeras vezes, finalmente pôde ser entregue ao descanso eterno. "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem" (Lc 23, 34).

Dom Aloísio Roque Oppermann scj - Arcebispo de Uberaba, MG
Endereço eletrônico: domroqueopp@terra. com.br