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Líricas Bulhufas
HOLY NIGHT
Marcelo Sguassábia *
Publicado em 18/12/07 |
I
Quanto ao acontecido, não pairava nenhuma dúvida: o Menino
Jesus de gesso tinha virado os olhinhos na minha direção,
dando ainda por cima um risinho de canto de boca. Estávamos os
oito na igreja, não podia fazer nada a não ser esperar
o fim da missa pra contar a todo mundo. De joelhos na hora da Consagração,
eu desacreditava e pedia ao Menino Jesus de verdade pra que o seu clone
do presépio parasse de brincadeira. Mas não. Olhava para
a manjedoura e ele me encarando. Às vezes até dava uma
piscadinha, franzia o cenho, mexia as pernas no berço de palha.
Apertava forte a mão de minha mãe, disso sempre irei lembrar,
me agarrava febrilmente à sua certeza de que tudo estava bem.
II
A lata semiaberta de pastilhas Valda no criado-mudo: aquilo era a cara
dele. O enxofre do polvilho Granado se via no tapete e empestava o ar.
Se velhinho tem cheiro, cheiro de velhinho é aquele, de talco
anti-séptico. Vovô Noel de costelas visíveis e peles
flácidas, em suspensórios e camisa regata no casulo do
seu quarto, deixava o leito em direção à porta,
lento como o badalar dos sinos.
- Oi, vô. Deixa que eu te ajudo, espera aí.
- Deus te abençoe, menino. Que o seu neto também seja
carinhoso com você, viu?
Lembrei das lições do catecismo e me senti um escoteiro,
ciente do dever cumprido.
III
Não, não naquele dia a nuvem de cebola refogada, o enxágüe
burocrático da louça, as coisas todas em seu lugar e um
lugar certo pra cada coisa. Não naquele dia a lida doméstica
sem gradientes de espanto. Não naquele dia o arrastar na marra
dos ponteiros do cuco, mostrando o tempo que faltava para levar as cadeiras
à varanda e jogar fora toda a conversa que houvesse no mundo.
Não naquele dia. Não na noite de Natal.
IV
No olfato se impunha o assado e seu perfume. Era só ele e mais
nada, das seis e meia em diante. Uma coisa de não resistir, de
ter de abrir o forno às escondidas e furtar a casquinha régia,
a mais cobiçada do bicho, onde a marinada da véspera tinha
feito repouso e deixado seu suco.
Papai Noel triunfa e ri seu riso balofo, abre sendas de alegria no chacoalhar
da pança. Havia o Natal e havia a urgência dos que não
podiam parar apesar dele. Havia o André da Botica Almeida &
Filhos, em plena noite de 24 a correr vila em cima da monareta, o estojinho
de injeção e o garrote tripa-de-mico na garupa.
- Prefere no braço ou no músculo?
Dizia polidamente músculo, às vezes região glútea,
dependendo da intimidade com o doente. Concluída a ronda dos
moribundos, como seria o Natal do André? Indo um pouquinho mais
longe: rezada a Missa do Galo, como seria o natal do Papa? Com quem
irá cear o Pontífice e o que terá sobre a mesa?
V
O peru se fatia como se em fatias estivéssemos destrinchando
as graças e desgraças da vidinha de costume.
Castanhas sobre a mesa, castanhos são os olhos de quase todos
ao redor, pastores vão aos berros clamando por conversão
na festa da cristandade.
- Ponha o copo de água sobre o aparelho de TV, ore comigo, meu
irmão!
Todos os pedidos jazem serenos nos sapatos. Papai Noel, eu quero. Papai
Noel, me traz.
* Marcelo Sguassábia
Humor, nonsense, sátira e o mais puro e mal-acabado besteirol.
Junte a isso algumas incursões no universo onírico, com
um tiquinho de nostalgia e introspecção. É esse
mais ou menos meu estilo: o não-estilo definido.
Sou redator publicitário, beatlemaníaco empedernido, pianista
diletante e fã de livros e filmes que tratem sobre viagens no
tempo. Tenho coluna fixa em diversas publicações eletrônicas
e um jornal impresso.
Blogs:
www.consoantesreticentes.blogspot.com
www.e-tcetera.blogspot.com
E-mail:
msguassabia@yahoo.com.br
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