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Líricas Bulhufas
BIG BROTHER SONORO
Marcelo Sguassábia *
Publicado em 28/11/07 |
- Um diário fonado.
- Como assim, um diário fonado?
- Você liga um desses gravadorzinhos digitais e vai gravando tudo
o que se passa. Eu disse tudo. Mas não um diário como
os outros, onde alguém narra o que acontece de mais importante.
É a vida gravada mesmo, um Show de Truman em áudio.
Quando a memória do gravador estiver cheia, descarrego no computador
e começo a gravar de novo, indefinidamente. Dia após dia,
ano após ano.
- Ah, sei. Você desperta e vai dizendo: abri os olhos, são
seis e trinta, coloquei os dois pés no chão, primeiro
o direito, depois o esquerdo, calcei os chinelos...
- Pára, eu tô falando sério. Não é
descrever o que rola, é viver com o gravadorzinho ligado. Como
um Big Brother, mas sem as imagens. Olha só, agora
mesmo estou gravando nossa conversa, que vai ficar pra posteridade.
Veja aqui o bichinho escondido no meu bolso.
- Que idéia maluca. Pra que isso?
- Hoje pode parecer absurdo, mas imagine o valor de um documento assim
pras próximas gerações. A sociedade do futuro saberá
como era a vida das pessoas no século 21. Eu digo a vida íntima,
o cotidiano nu e cru, entende? Nossos bisnetos herdarão uma relíquia
de incalculável valor histórico. Nunca ninguém
fez isso antes. Imagine se você pudesse ter acesso ao registro
da vida da sua bisavó, minuto a minuto. Não seria sensacional?
- Isso inclui cada instante vivido, sem intervalos?
- Claro. Se editar, perde a credibilidade.
- Sei, e quando a gente estiver na cama? Vai que alguém rouba
a traquitana e devassa nossa intimidade, pensa bem... Outra coisa, e
na hora de ir ao banheiro? Entram até, digamos assim, as manifestações
orgânicas de caráter involuntário? O barulho da
descarga? As escovações de dente?
- Tudo, ininterruptamente, até o último suspiro.
- Que mórbido.
- Gravaremos o primeiro choro do nosso filho, os gritos na montanha
russa, os rojões nos jogos da Copa, pessoas reclamando da fila
que não anda, o motorzinho no dentista, a fala dos pedintes nos
semáforos... não vamos mais correr o risco de não
lembrar das coisas. O inventário detalhado da existência
estará sempre à mão. Basta um rewind
pra reviver os melhores momentos.
- Bom, já que é pra registrar, por que não faz
isso em vídeo?
- É que aí a gente vai querer ficar arrumadinho o tempo
todo. Quando uma câmera é apontada pra você, acabou
a espontaneidade. Fora que o áudio vai mexer mais com a imaginação
de quem estiver ouvindo lá no futuro. É como as radionovelas,
só que uma radionovela real, que dura décadas. Se Deus
quiser, né.Parte inferior do formulário
- Ok, suponhamos que você viva mais 50 anos. Será meio
século de áudio estocado. Se algum louco se meter a escutar
isso, vai perder 50 anos da própria vida pra ouvir o que você
gravou. É preciso muito amor à sua pessoa ou à
pesquisa antropológica, não acha não?
- Mas também não é assim. As 8 horas diárias
de sono não seriam gravadas, porque aí não acontece
nada mesmo. Seriam 16,6 anos de gravação a menos.
- Ah bom, aí já dá pra encarar a empreitada. São
só 33 anos na escuta! Ora, tenha paciência.
- Repare que interessante metalinguagem: estou gravando você falando
da gravação que a gente está fazendo. Maluco, né?
- Então, mas o problema...
(Neste momento, aparentemente, houve pane no gravador. Não há
registro da continuação da conversa).
* Marcelo Sguassábia
Humor, nonsense, sátira e o mais puro e mal-acabado besteirol.
Junte a isso algumas incursões no universo onírico, com
um tiquinho de nostalgia e introspecção. É esse
mais ou menos meu estilo: o não-estilo definido.
Sou redator publicitário, beatlemaníaco empedernido, pianista
diletante e fã de livros e filmes que tratem sobre viagens no
tempo. Tenho coluna fixa em diversas publicações eletrônicas
e um jornal impresso.
Blogs:
www.consoantesreticentes.blogspot.com
www.e-tcetera.blogspot.com
E-mail:
msguassabia@yahoo.com.br
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