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Boa Vontade
“E a jangada voltou só”
Publicado em 27/08/08
José de Paiva Netto, jornalista, radialista e escritor,
é Presidente das Instituições da Boa Vontade.
www.lbv.pt |
Nas belas paragens de Itapuã, na Bahia, vê-se ao longe
uma jangada. Silenciosa, vai sumindo no horizonte, conduzida por um
simpático ancião de cabeça toda branca, sereno,
a cantar uma melodia que parece acompanhar o ritmo das ondas:
“A jangada saiu/ Com Chico Ferreira/ E Bento.../ A jangada voltou
só...
“Com certeza foi, lá fora,/ algum pé-de-vento.../
A jangada voltou só.../ Chico era o boi do rancho/ Nas festas
de Natá/ Não se ensaiava o rancho/ Sem com Chico se contá./
E agora que não tem Chico/ Que graça que pode ter?.../
Se Chico foi na jangada.../ E a jangada voltou só...
“A jangada saiu...
“Bento cantando modas/ Muita figura fez/ Bento tinha bom peito/
E pra cantar não tinha vez/ As moças de Jaguaripe/ Choraram
de fazer dó/ Seu Bento foi na jangada/ E a jangada voltou só...”.
Essa é uma das imagens que sempre na alma guardarei do famoso
cantor, poeta, compositor e violonista baiano Dorival Caymmi, que voltou
à pátria espiritual no último 16 de agosto, na
cidade do Rio de Janeiro. Mais vivo do que nunca, pois os mortos não
morrem, passa a fazer parte de um time de estrelas que já contava
com a presença de Jorge Amado, Carmen Miranda, Tom Jobim, Cartola,
Herivelto Martins e Dalva de Oliveira (saudosos pais do amigo Pery Ribeiro),
além de tantos outros valores inestimáveis da cultura
brasileira. Aliás, Pery e também Nonato Buzar estiveram
no São João Batista, para homenagear o grande ícone
da música nacional.
Vidas cruzadas
Em diversas oportunidades, inclusive neste espaço, comentei o
fato de esse extraordinário músico ter sido decisivo na
aproximação de meus pais, escolhido por eles como padrinho
de casamento. Passei a infância e a mocidade ouvindo e cantando
Caymmi lá em casa.
A dedicatória que recebi da amável Stella, neta dele,
em sua obra “Dorival Caymmi – O mar e o tempo”, fala-nos
dessa amizade: “Querido Paiva Netto, a história de teu
pai se cruza com a de meu avô. Que você curta muito o meu
livro, beijos, Stella”.
Ainda nessa biografia, há o seguinte registro da autora: “(...)
o jornalista e radialista Alziro Zarur (1914-1979) — futuro fundador
da Legião da Boa Vontade — escreveu uma nota em que afirmava,
com certo exagero, que ‘se não houvesse balangandãs,
torço de seda, e se não houvesse Dorival Caymmi, não
haveria Carmen Miranda nem seu sucesso nos Estados Unidos’”.
Na necrópole, fiz questão de levar minha solidariedade
aos filhos do inesquecível Caymmi: Dori, Danilo e Nana. Ao abraçar
carinhosamente a querida Nana, pedi a Deus que enviasse também
as melhores vibrações de fraternidade aos demais familiares
de nosso amigo: sua amada esposa, dona Stella Maris, os netos e bisnetos
do exemplar casal.
A jangada “voltou só”, mas Caymmi prossegue navegando
pelos mares do universo. E os bons espíritos, nossos anjos guardiães,
se incumbirão agora de bem cuidar dele no Céu.
Lembrança de Getúlio Vargas
No meu livro “Crônicas e Entrevistas”, da Editora
Elevação, conto que, em 24 de agosto de 1954, era eu um
adolescente. Saía sempre cedo para estudar. Naquele dia, de súbito,
uma professora, com os olhos esbugalhados, irrompe sala adentro. Chorosa,
grita: “Aconteceu uma coisa horrível! Getúlio se
suicidou!”.
Um raio caiu sobre todos nós, meninos e meninas que estudávamos.
As classes foram dispensadas. No país, salvo as exceções
de praxe, paixões e baixezas políticas provisoriamente
esquecidas. Os homens lembraram-se de que são humanos. Fui andando
pela Dias da Cruz, no bairro carioca do Méier, enquanto pensava,
como pensava um menino de 13 anos naquele tempo... Havia uma indescritível
angústia no ar. Aquela rua tão bela quedava sombria, apesar
da claridade matutina. Era a consternação das almas...
Tudo passa. Mas o povo permanece.
Quantas vezes a população expressa mais refinado sentimento
do que os seus condutores! Muitos rostos apareceram chorando pelas calçadas.
E eu pensava, como pensava um menino de 13 anos naquele tempo... Que
será do meu país daqui pra frente?!
Depois de vários minutos meditando sobre a tristeza geral e a
dor da família Vargas, olhei para o alto e disse de mim para
comigo mesmo: Por mais cruel que seja o sofrimento, a vida continua!...
Por mais importante que seja um homem, não é maior do
que a sua pátria. Tudo passa. Mas o povo permanece (...).
Transcorridos alguns dias, uns debochados surgiram com uma brincadeira
fora de hora:
“— Essa droga de país só tem um jeito! Vamos
provocar uma guerra com os estrangeiros... Aí eles vêm,
ganham, e estarão resolvidos os nossos problemas...”.
Cinismo puro! Ainda bem que a elite de uma nação é
o seu povo.
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