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Antropologia
Fazer
o que gosta ou gostar do que faz?
Luiz Almeida Marins Filho - Antropólogo,
Professor Universitário, Palestrante, Comentarista Empresarial
e de Negócios,
entre outros.
e-mail:
professor@marins.com.br
Publicado em 08/07/08 |
Fazer o que gosta como forma de trabalho e de “ganhar a vida”
é um dos maiores objetivos de qualquer pessoa. Desde a infância
somos incentivados a buscar o que gostamos. Muitos gurus dizem que a
pessoa só é feliz quando faz o que gosta. Uma das maiores
fontes de infelicidade está em não fazer o se gosta de
fazer.
Testes vocacionais buscam saber do que e com o que você gostava
de brincar na infância para descobrir sua real vocação
adulta. A premissa é que na infância você brinca
com o que realmente gosta. Descobrindo essas atividades espontâneas
infantis, psicólogos e pedagogos acreditam descobrir a real vocação
de uma pessoa na idade adulta.
Há ainda os recorrentes depoimentos de pessoas que afirmam não
sentir necessidade sequer de férias, dando como explicação
o famoso “faço o que gosto”. Há ainda os que
afirmam que “para mim o trabalho é um lazer porque faço
o que gosto...”.
Psiquiatras, psicoterapeutas, psicólogos e até pedagogos
aconselham as pessoas estressadas ou deprimidas a abandonar as “amarras
da vida”, mudarem suas vidas e “fazer o que realmente gostam”.
Vejo, também, jovens que entram numa determinada faculdade e
desistem no segundo semestre ou no segundo ano. A razão, segundo
eles é “vi que não era o que eu gostava...”.
E assim mudam de medicina para psicologia, de psicologia para publicidade,
etc. Tudo em busca de “achar o que gosta”.
Assim, fazer o que gosta parece ser fundamental para o sucesso pessoal,
profissional e empresarial.
É claro que “fazer o que gosta” é o ideal
de todos nós. Trabalhar num campo, num setor, numa empresa onde
“gostamos do que fazemos” é um grande fator de ausência
de estresse e tensão. Portanto, o ideal será sempre conciliar
o trabalho com aquilo que espontaneamente se gosta de fazer.
Porém, como sabemos, esse ideal nem sempre é atingível.
Nem sempre é possível trabalhar no que “gostamos”.
Nem sempre é possível fazer de nossa vocação
original e intrínseca a nossa fonte de renda ou de emprego. Devemos,
incessantemente, buscar esse ideal, mas num determinado momento de nossas
vidas, chegamos à plena consciência e maturidade de que
esse ideal não será facilmente atingido.
O tempo passou. Os compromissos se acumulam. Não podemos mais
ficar pulando de galho em galho em busca do que simplesmente gostamos.
Temos que “ganhar a vida”. Temos uma família para
criar. Filhos na escola. Prestações da casa própria.
O tempo está passando muito rapidamente...
É justamente essa fase que eu chamo de “maturidade plena”.
É quando deixamos nossos “sonhos” que sabemos hoje,
inatingíveis, e tomamos consciência do que realmente somos
e do que realmente temos e poderemos ter – em condições
de vida normal.
E é justamente essa maturidade que deve nos ensinar a gostar
do que fazemos. Viver a vida toda em busca do “fazer o que gosta”
pode nos desviar do prazer de “gostar do que fazemos”.
Uma pessoa realmente madura, mais do que buscar fazer o que gosta, aprende
a gostar do faz. Aprende a ver na sua família, a sua família
e a gostar dela como ela é. Aprende a ver na sua imagem, a sua
verdadeira imagem e gostar dela como ela é. Aprende a ver o seu
emprego como o seu emprego e a gostar dele e sentir prazer no trabalho.
É um exercício de aprendizagem.
Aprendendo a gostar do que faz a pessoa começa a deixar de lado
as eternas tensões de lutar contra o que faz. Ela aprende a enxergar
o lado positivo do seu emprego, do seu trabalho, da sua profissão.
Pessoas que vivem na busca incessante de fazer o que gostam, não
se permitem enxergar o lado positivo do que fazem, do emprego em que
estão, das coisas que possuem e até dos amigos com quem
convivem. Estão o tempo todo em busca do que, muitas vezes, nem
elas próprias sabem o que é. Elas sabem do que não
gostam – e isso é quase tudo o que fazem – mas não
sabe do que realmente gostam. E essa busca, muitas vezes, dura uma vida
toda de insatisfação e não-realização.
É preciso aprender a gostar do que faz.
E que o leitor não pense que estou advogando a acomodação.
Que estou defendendo a não-busca do ideal de fazer o que gosta.
Que acredito na impossibilidade total de ganhar a vida fazendo o que
se gosta de fazer. Pelo contrário. Advogo a busca do ideal de
trabalhar, de fazer, de viver fazendo o que se gosta de fazer.
Mas insisto na consciência da realidade de que, num certo momento
da vida é preciso gostar do que faz e buscar a felicidade na
madura dedicação e comprometimento ao que se está
fazendo.
Assim, acredito que o gosto pelo trabalho é também uma
atitude mental. No momento em que eu aceitar o fato de que minha profissão
é aquela; meu emprego é aquele; meus colegas são
aqueles; posso desenvolver atitudes e comportamentos mais positivos
em relação ao trabalho, à profissão e às
pessoas.
Se sou médico ou professor e descubro aos 45 anos que “não
era bem isso que eu queria ser”, é claro que posso jogar
tudo para o alto, mudar de vida, de profissão, etc. Mas será
muito mais maduro se eu aprender a gostar do que faço encontrando
dentro da medicina ou do magistério o prazer, a satisfação
que por certo essas profissões podem propiciar.
Mas para gostar do que faz é preciso querer gostar do que faz.
É preciso dominar a vontade e a parte imatura de nosso ser que
busca fugir da responsabilidade do enfrentamento da realidade e “queimar
as naus” do passado ou do que achamos que “gostaríamos
de fazer”.
Sei que muitos leitores não concordarão com o que estou
dizendo. Sei que muitos leitores dirão que temos que buscar fazer
o que gostamos até morrer. Que uma pessoa nunca deve deixar de
buscar o ideal de fazer o que gosta. Concordo com o ideal dessa busca,
com um ideal.
Mas, é preciso reconhecer, sem fantasias, que a vida, na prática,
mostra que pessoas que aprenderam a gostar do que fazem acabaram descobrindo
a felicidade e o sucesso de forma igualmente gratificante. Elas aprenderam
a fazer do que fazem aquilo que gostam e não desperdiçarm
a vida esperando o que gostam para fazer.
Pense nisso. Sucesso!
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