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O que nos move a depositarmos a nossa confiança em alguém
ou vice-versa? Imaginemos quando esse depósito de confiança
é inesperado e o depositante realiza seu gesto, passados poucos
dias da amizade ter nascido.
No episódio que narrarei, o depositante da confiança foi
o cantor Agnaldo Timóteo e o merecedor do depósito, este
mortal escriba. No último sábado ele esteve em Uberaba
e brindou-nos com um belo show no Cine Municipal Vera Cruz.
É costume dos artistas receberem seus cachês em moeda viva
antes das suas apresentações. Ao ser dado a Agnaldo um
cheque em pagamento, o astro de “Os verdes campos da minha terra”
foi enfático: “Não recebo cheque; nós os
artistas só trabalhamos com dinheiro em espécie!”.
E é essa a realidade.
O tempo passava com evidências de que o show não iria acontecer.
Fui chamado ao camarim a fim de presentear Timóteo com o livro
“O ANDARILHO; QUEM É ELE?”. Agnaldo conteve-se por
um minuto para receber o presente. Olhou demoradamente para a capa amarela
da obra literária e, aquebrantado, agradeceu-me com emoção.
Pediu-me para entregar-lhe o livro no palco e na presença de
todos disse: “João; você me faz esse cheque virar
dinheiro na segunda-feira?”
Ao obter dos responsáveis pelo evento o compromisso de que o
dinheiro de Agnaldo estaria depositado em conta bancaria, dei-lhe o
sim. Timóteo colocou o cheque no bolso do meu paletó,
sem pedir sequer um recibo. Assumi uma responsabilidade histórica
que não era minha. Pensei na felicidade daquela seleta platéia
que o aguardava e não hesitei em aceitar a missão. O respeitável
amigo Antenor Cruvinel convidou-me a apresentar Agnaldo ao público,
mas declinei-me da honrosa atribuição.
“Montanha” e outros profissionais do mundo artístico
ali presentes disseram nunca ter visto gesto de desprendimento igual
ao do cantor de Caratinga. Cantar sem receber nem os pássaros
aceitam, disseram. Vamos a trabalho! Disse Agnaldo; e foi. Quase duas
horas passaram rapidíssimo!
A grandeza é para os grandes, mas a humildade é para os
maiores. Vi um gigante chamado Agnaldo Timóteo, cujo imenso coração
cantou mais alto do que a sua própria voz. Seus fãs ali
presentes é que o digam. Aplausos, lágrimas, fotos e abraços
ocorreram como nunca assisti no Cine Municipal Vera Cruz.
Pena é que o dinheiro de Agnaldo não foi depositado integralmente
na segunda-feira. A sua generosidade e o amor por Uberaba lhe pediram
e ele respondeu: “Esperarei com paciência.”
(*) PRESIDENTE DO FÓRUM PERMANENTE DOS ARTICULISTAS
DE UBERABA E REGIÃO.
E-mail: forumarticulistas@hotmail.com
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